O pão, o vinho e o silêncio que fala
Acordei com a notícia atravessando o dia como um ruído difícil de ignorar. O caso do cão Orelha já tinha se espalhado: imprensa nacional, internacional, redes sociais inflamadas, opiniões prontas, indignações em série. Era impossível não sentir algo. Mas, enquanto lia e relia manchetes, me veio uma pergunta mais profunda do que qualquer julgamento: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de sentir?
Não escrevo e nem falo para condenar ou absolver ninguém. A justiça humana segue seus caminhos e precisa seguir. O que me inquieta não é o veredito, mas o espelho. Toda tragédia pública é, de alguma forma, um convite silencioso para que a gente olhe o cenário maior: o estado da nossa consciência.
Pensei então no pão e no vinho.
No gesto antigo, simbólico, profundamente humano. O pão que se reparte lembra que a vida é partilha. O vinho que se oferece lembra que a vida é presença, intensidade, sacrifício, transformação. Quando esses símbolos atravessam a história cristã, eles não surgem como instrumentos de acusação, mas como linguagem de compreensão.
O Cristo não se apresenta como juiz da fúria humana, mas como alguém que entende o drama humano por dentro.
Talvez seja isso que nos falte quando reagimos a acontecimentos assim: menos pressa em apontar dedos e mais disposição para compreender o terreno onde esses atos nascem. Não para justificar (jamais), mas para perguntar: que tipo de mundo estamos cultivando quando a vida, qualquer vida, perde o peso do sagrado?
Porque a vida é inteira. A vida do homem, da mulher, do animal, da planta, da pedra que sustenta o chão. Tudo vibra numa mesma teia de existência. Quando uma vida é ferida, algo em nós também é. Não é metáfora bonita, é uma realidade ética. A forma como tratamos o mais vulnerável revela o tamanho da nossa humanidade.
E aqui entra algo que atravessa meu trabalho, minha fala, minhas reflexões: a comunicação.
Comunicar não é apenas transmitir palavras; é exercer poder. A palavra pode acolher, educar, ampliar horizontes. Mas também pode ferir, incendiar, desumanizar. Vejo, em momentos como esse, a comunicação se transformar em tribunal instantâneo. E, isso me preocupa. Não porque não devamos falar, mas porque precisamos aprender como falar.
Comunicar não é gritar mais alto. É sustentar a verdade com responsabilidade. Liderar, em tempos de exaustão, é justamente criar espaços onde a reflexão seja maior que o impulso. Onde a indignação se converta em consciência. Onde a dor gera aprendizado; não espetáculo.
O caso do cão Orelha (já estou refletindo atrasado para a velocidade das informações) ocupa manchetes talvez desapareça amanhã do ciclo das notícias. Mas a pergunta que ele deixa não deveria desaparecer conosco: como estamos educando nosso olhar para a vida?
Se o pão simboliza partilha e o vinho simboliza transformação, então cada acontecimento duro é uma oportunidade de repartir consciência e transformar postura. Não se trata de suavizar o horror, mas de impedir que ele nos transforme em versões endurecidas de nós mesmos.
Eu sigo acreditando que a resposta não está no barulho, mas no entendimento. No gesto cotidiano de ampliar a sensibilidade. Em lembrar que viver é um exercício de reverência ao humano, ao animal, ao mundo que respiramos juntos.
Talvez seja esse o verdadeiro rito que nos cabe: aprender a olhar para a vida (toda vida) com o respeito de quem entende que existir já é, em si, um milagre compartilhado.
Caio Quinderé, 05 de fevereiro de 2026

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