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Mostrando postagens de 2026

Entre acentos e palavras

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 Acesse no jornal O Estado. https://oestadoce.com.br/opiniao/entre-acentos-e-palavras/ Houve um tempo em que pensei que o português fosse uma casa, de portas altas e janelas que rangem com o tempo, onde cada cômodo guarda um eco. A gente entra menino, tropeça nos tapetes, esbarra nos móveis, bate a cabeça nos acentos. Ou deveria ser pés e tornozelos nos assentos. Seguimos, e vamos falando até entender que ali dentro nada é exatamente o que parece; mas tudo encontra um sentido quando se escuta com paciência. Outro dia, por exemplo, me peguei implicando com esse pequeno traço que governa destinos: o acento. Um risco mínimo, desses que cabem na ponta do lápis, porém muda tudo. Entre doidos e doídos há mais que uma diferença gráfica; há um abismo humano. Um se perde da razão, o outro se perde de si. E o curioso é que, na pressa cotidiana, basta um descuido para que a dor vire desordem. Ou o contrário. Há quem diga que acento é detalhe, principalmente com essa forma de escrita, o WhatAp...

Adeus de um Aremesso Infinito

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  Adeus de um Arremesso Infinito Há despedidas que não cabem no calendário. Elas acontecem dentro da gente, quando o silêncio ocupa o lugar de um som que parecia eterno. A partida de Oscar Schmidt tem um pouco disso: não é apenas a ausência de um atleta, mas a sensação de que um pedaço da nossa memória coletiva atravessou a quadra do tempo e desapareceu no túnel dos vestiários. Para quem cresceu vendo o Brasil se reconhecer em seus heróis esportivos, Oscar não era só um jogador de basquete. Era uma espécie de bandeira humana tremulando dentro das quadras. Cada arremesso seu carregava mais do que a bola: levava consigo um país inteiro, com suas esperanças e seus sonhos.  Aquela insistência teimosa de acreditar que é possível ser grande. Ser brasileiro. Nos anos em que o Brasil ainda aprendia a se olhar com orgulho (e esse é um exercício que precisa ser cultivado), Oscar surgia como um gesto luminoso. Alto, obstinado, dono de um arremesso buscando conversar com o destino. Quando...

Certa Pressa

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Tenho a impressão de que as pessoas andam com uma urgência dentro do peito. Não sei exatamente a urgência de quê. Talvez de viver, porém desconfio que seja mais uma urgência de parecer que vivem. Explico: outro dia vi um homem discutindo com um motorista no meio da rua. Nada muito grave: uma buzinada mais longa, um gesto atravessado pela janela, essas pequenas tragédias urbanas que duram menos de dois minutos e deixam um rastro de irritação no ar. Cada um defendia seu território com uma convicção admirável, como se o destino da humanidade dependesse daquela esquina. Cada um andava ocupado demais defendendo alguma coisa invisível. Defendendo a opinião, a razão, a imagem, a ideia de sucesso. Até defendendo aquilo que ainda não somos, mas gostaríamos muito de parecer ser. E nisso ficamos duros demais. A empatia, uma espécie de delicadeza da atenção, vai rareando. Escutar o outro exige uma pausa, e a pausa virou artigo raro.  Estamos sempre em movimento. Mesmo quando estamos sentados. ...

O Império e o Crepúsculo do Mundo

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Há noites em que o mundo parece um mapa aceso. Não um mapa de geografia, desses que aprendemos na escola, mas um mapa de tensões. Linhas invisíveis que atravessam continentes e transformam cidades em manchetes. De um lado, a guerra entre Rússia e Ucrânia já pouco esquecida pela mídia, porém parece arrastar consigo fantasmas antigos da história europeia. Mais ao sul, o eterno atrito entre Irã e o Ocidente. Na América Latina, a pressão constante sobre a Venezuela, país cercado por sanções, disputas políticas e interesses estratégicos. Nos discursos oficiais, fala-se em democracia, segurança, estabilidade, petróleo e recursos naturais. São palavras grandes, usadas como placas de trânsito para orientar a opinião pública, Entretanto, às vezes, a sensação é outra. Parece que estamos assistindo ao cansaço de um império. Durante quase um século, os Estados Unidos foram o grande eixo do mundo. Depois da Segunda Guerra, ergueram uma ordem internacional que orbitava ao redor do dólar, de suas uni...

O Silêncio virou Grito

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Março chega sempre com flores nas vitrines e discursos prontos nos palcos. Falam da delicadeza, da força, da beleza das mulheres — palavras bonitas, alinhadas como buquês. Mas, enquanto os elogios são distribuídos em cartões e redes sociais, uma outra contagem segue correndo silenciosa nos noticiários: a das mulheres que não voltaram para casa. Muitas vezes, (com grande recorrência ultimamente) o Brasil e o mundo amanhecem com a notícia que já não deveria existir. Mais um nome. Mais uma vida interrompida. Mais um caso de feminicídio. Exemplos se multiplicam e repercutiram com assassinatos cometidos por parceiros ou ex-parceiros, como o caso da jovem grega Kyriaki Griva, morta pelo ex-companheiro perto de uma delegacia após pedir ajuda à polícia. E também o ocorrido em Itumbiara (Goiás), de um homem que matou a ex-esposa a tiros dentro de casa no bairro Jardim Europa, e, em seguida, tirou a própria vida.  Só para citar casos recentes que assustam com a frieza da crueldade. Mas o que...

Carnaval, raiz do Brasil.

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  O carnaval não começa na avenida. Ele começa muito antes —  no quintal varrido, no barracão que respira cola, tinta e conversa, no rádio e novas mídias ligadas enquanto mãos calejadas transformam papel, tecido e sonho em promessa. O carnaval nasce onde a vida é coletiva, onde ninguém faz nada sozinho, onde cada gesto carrega uma herança antiga que pulsa sem pedir licença. É festa, sim. Mas é também memória. Há um sangue ancestral correndo sob o brilho das lantejoulas. Um tambor que não toca apenas ritmo: toca história. Cada batida parece dizer que o Brasil não é só o que se vê, é o que resiste. É o que se reinventa. O carnaval é o idioma de um povo que aprendeu a transformar dor em dança, dificuldade em fantasia, sobrevivência em celebração. Nos barracões, o tempo se dilata. Ali, trabalhadores e trabalhadoras esculpem alegria com precisão de quem sabe que a beleza também é um ofício. Cada costura é um pacto silencioso: fazer florescer grandeza com o que se tem. O luxo que at...

O avesso da honra, uma tragédia humana.

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O país acordou atravessado por uma notícia que não cabe inteira em nenhuma manchete. Um homem matou os próprios filhos e depois tirou a própria vida. As primeiras explicações correram com a velocidade que só a dor e o escândalo conhecem: traição, honra ferida, vingança íntima. Em poucas horas, as redes já tinham um tribunal armado, réus definidos, sentenças proferidas. Tudo muito rápido. Rápido demais para algo que exige silêncio. O que mais assusta não é apenas o crime (já terrível por si), mas o quanto ele ativa fantasmas antigos que a gente jura ter superado. A ideia de honra masculina que atravessa séculos legitimando violências, reaparece como um eco incômodo. Mudam os séculos, mudam as leis, mas certas sombras parecem sobreviver no inconsciente coletivo, esperando um gatilho para voltar a respirar. Não escrevo como juiz. Não é meu lugar absolver ou condenar. Mas sou alguém que tenta compreender o cenário humano que se revela quando a tragédia rasga o cotidiano. E há algo aqui que...

Bad Bunny e a América sem fronteira

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  Houve um instante curioso no espetáculo mais barulhento do planeta em que um porto-riquenho decidiu lembrar ao público algo perigosamente simples: a América não cabe numa bandeira só. Bad Bunny surgiu como quem atravessa fronteiras sem passaporte. Não trouxe mapas, trouxe uma palavra antiga: América. Inteira. Sem hífen, sem muro, sem rodapé diplomático. América como um corpo continental — sul, centro e norte — respirando no mesmo pulmão geológico. E ali, no Super Bowl, esse altar contemporâneo do espetáculo, ele fez algo quase herético: cantou união num lugar acostumado a celebrar disputas. Foi bonito. E, por isso mesmo, irônico. Porque enquanto os refletores desenhavam um continente imaginário no ar, havia um silêncio curioso sobre tudo aquilo que insiste em nos separar: sotaques, moedas, cicatrizes históricas, a eterna mania humana de transformar linhas imaginárias em trincheiras morais. O show dizia: somos um só território. A história, essa senhora sem maquiagem, sussurrava: s...

O pão, o vinho e o silêncio que fala

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  Acordei com a notícia atravessando o dia como um ruído difícil de ignorar. O caso do cão Orelha já tinha se espalhado: imprensa nacional, internacional, redes sociais inflamadas, opiniões prontas, indignações em série. Era impossível não sentir algo. Mas, enquanto lia e relia manchetes, me veio uma pergunta mais profunda do que qualquer julgamento: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de sentir? Não escrevo e nem falo para condenar ou absolver ninguém. A justiça humana segue seus caminhos e precisa seguir. O que me inquieta não é o veredito, mas o espelho. Toda tragédia pública é, de alguma forma, um convite silencioso para que a gente olhe o cenário maior: o estado da nossa consciência. Pensei então no pão e no vinho. No gesto antigo, simbólico, profundamente humano. O pão que se reparte lembra que a vida é partilha. O vinho que se oferece lembra que a vida é presença, intensidade, sacrifício, transformação. Quando esses símbolos atravessam a história cristã, eles não su...

O que eu venho aprendendo com a vida e posso contar

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Aprendi cedo que os lugares falam. Não em voz alta, mas em camadas: no jeito das pessoas, nos silêncios, nos gestos cotidianos e na forma como o tempo parece obedecer a outras regras. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar cultura, território e vida. Para mim, as artes sempre foram menos um conceito e mais uma experiência atravessada no corpo. No Sesc Ceará, onde trabalhei por mais de 10 anos,  essa percepção ganhou chão. Ali entendi que cultura não é evento isolado, é processo contínuo de encontro. Pessoas diferentes, histórias diversas, linguagens múltiplas convivendo no mesmo espaço me ensinaram que comunicar é, antes de tudo, criar pontes. Aprendi a escutar mais do que a explicar, a observar mais do que intervir. Foi ali que comecei a perceber que a diversidade, quando acolhida, organiza e não desordena. Depois, o caminho me levou a Almada, em Portugal, outro lado do Atlântico. Na vila de pescadores da Costa de Caparica, a vida tinha cheiro de sal e ritmo de maré. Ho...

O que é possível?

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  Para mim, falar de multiculturalismo, economia criativa e sustentabilidade não é um exercício teórico, é uma vivência. Ao longo da minha trajetória como jornalista, gestor e articulador de projetos, aprendi que os territórios falam, as culturas ensinam e as pessoas carregam soluções que muitas vezes não cabem nos modelos tradicionais de desenvolvimento. O multiculturalismo sempre foi um ponto de partida. Escutar diferentes vozes, reconhecer saberes ancestrais, respeitar identidades e compreender os contextos locais me mostrou que não existe inovação sem diversidade. É no encontro entre culturas, olhares e histórias que surgem ideias capazes de transformar realidades. Quando a escuta é verdadeira, a diferença deixa de ser ruído e passa a ser potência. A economia criativa entrou na minha vida como prática concreta nos anos em que trabalhei no Sesc Ceará, depois em Almada, Portugal para chegar em Sabiaguaba. Vi comunidades se fortalecerem quando sua cultura deixou de ser vista apena...

Os cacos que não cabem no feed

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  Vivemos um tempo curioso: nunca foi tão importante parecer inteiro. Inteiro, feliz, produtivo, iluminado por filtros quentes e frases prontas. A vida virou vitrine. E o sofrimento, quando aparece, precisa ser rápido, discreto e esteticamente aceitável. Dor longa não engaja. Silêncio profundo não viraliza. E já dizia o poeta Fernando Pessoa por Álvaro de Campos: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo". O Poema em Linha Reta é uma crítica às relações sociais que Campos parece observar, de fora, e a sua incapacidade de se operar pelas regras de etiqueta e conduta vigentes. o sujeito lírico aponta a falsidade e hipocrisia dessas relações. Nada longe como estamos vivendo. Há pesquisas de psicólogos, neurocientistas, estudiosos do comportamento que já ousam dizer o impensável: as redes sociais funcionam como a nova droga social. Estimulam dopamina, criam dependência, geram abstinência emocional. Não queimam os pulmões como o...

Meu reino por um cavalo (ou uma ilha)

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“Meu reino por um cavalo. ” Ricardo III grita no campo de batalha quando já perdeu tudo: aliados, honra, futuro. Shakespeare não escreve sobre a troca; escreve sobre o desespero. O rei não negocia, implora. O poder, quando escorre pelos dedos, aceita qualquer moeda. Em janeiro de 2026, o grito volta a ecoar, mas invertido. Não vem de um rei acuado, e sim de um governante que se imagina senhor do tabuleiro inteiro. Agora o cavalo não é montaria: é território. É ilha. É gelo, petróleo, minerais raros. É a Groenlândia transformada em peça de xadrez, avaliada em cifras e ameaças tarifárias. Não se pede. Exige-se. Não se perde tudo. Quer-se mais. Donald Trump atua como um personagem que confunde palco com mundo. Veste a coroa antes do figurino, improvisa falas, atropela o texto da História e chama isso de força. O imperialismo, que antes disfarçava seus passos com discursos civilizatórios, hoje marcha com a franqueza de um leiloeiro: quanto custa? Quem vende? Quem resiste paga pedágio. A Di...

Fortaleza não nasceu. Aconteceu

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Sem saber que entrava numa cidade que ainda estava se escrevendo e que, aos poucos, passaria a me escrever também, cheguei em 1994. No primeiro calor, esse abraço sem aviso, me recebeu sem pedir explicações. Eu vinha de fora, com malas, sonhos e uma pressa que não sabia nomear. Vim como quem chega. Fiquei como quem cria raiz. Foi aqui que me tornei quem sou. Casei, tive filhos, construí uma carreira, errei, recomecei. Aqui aprendi que a vida não é linha reta, é maré. E que o tempo, como essa cidade, não se impõe: se negocia. Fortaleza faz aniversário em 13 de abril. Gosto de pensar nessa data não como início, mas como um gesto simbólico, quase um acordo afetivo com o calendário sentimental de nós mesmos. Porque Fortaleza não começou num dia. Fortaleza foi acontecendo. Como gente. Como família. Como nós e em nós. Quando aprendi a caminhar por suas ruas, não percebia que sob o asfalto dormiam trilhas antigas: passos indígenas, tentativas interrompidas, silêncios impostos, resistências fe...

Sobremesa da Vida

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Tudo passa por mim. E passa rápido, como se o tempo tivesse perdido a delicadeza. Minha mente corre sem direção, um tropel de pensamentos que não se aquieta. A ansiedade não bate à porta — entra. Senta. Fica. Quer que tudo aconteça agora, de uma vez, como um giro completo do mundo. Um 360 graus que reorganize o caos. Mas o que sinto é o contrário: prisão. Um quarto sem janelas. Um silêncio que não responde. Sou uma pessoa boa. Digo isso sem vaidade, como quem constata um fato simples. Trabalho, cuido, insisto. Ainda assim, nada garante retorno. Lá fora, o mundo estilhaça: guerras, urgências, gritos. Aqui dentro, o esforço parece não encontrar eco. Abri frentes demais. Plantei projetos como quem acende velas. Coloquei tempo, fé, esperança. Esperei. Nada avançou. Nada vingou no tempo prometido. E isso pesa. Um peso invisível, mas constante, que se chama ansiedade — e às vezes medo, mesmo quando não confesso. Tudo se mistura: frustração com cansaço, fé com dúvida, coragem com esgotamento....

Quando o Humano se torna Inumano

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  Há um momento em que o humano deixa de ser sujeito e passa a ser vitrine. Não acontece de uma vez; é um processo silencioso, confortável, instagramável. Primeiro, aprende-se a sorrir para a câmera. Depois, a viver para ela. Por fim, já não se sabe mais existir sem o reflexo do próprio rosto numa tela. A degradação do humano não vem com algemas nem com decretos. Ela chega em forma de convite: “mostre-se”. O mundo vira cenário, a intimidade vira conteúdo, o pensamento precisa caber em quinze segundos. O que não engaja não existe. O que não aparece morre. E assim seguimos, fabricando versões editadas de nós mesmos, como se a vida precisasse de filtro para ser suportável. O tal do BBB é a síntese brutal desse projeto. Uma casa de vidro onde pessoas são confinadas não para viver, mas para performar. Não se trata de convivência, mas de exposição. Não é experiência humana, é experimento social com plateia. Gente vigiada, editada, torcida, cancelada. Do lado de fora, multidões gritam — n...