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Mostrando postagens de 2026

O Goleiro da Vida

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  O Goleiro da Vida por Caio Quinderé Quando se fala em futebol, quase sempre os holofotes apontam para quem faz o gol. O centroavante é celebrado, o camisa dez é aplaudido, os atacantes viram heróis. Às vezes, até a defesa ganha reconhecimento. Mas há um personagem que costuma viver entre o anonimato e a glória: o goleiro. O goleiro é diferente. Enquanto todos correm para frente, ele permanece atrás. Enquanto os outros comemoram os gols, ele luta para evitá-los. Seu maior triunfo é impedir que o pior aconteça. Seu erro, muitas vezes, é fatal. Seu acerto, quase sempre, passa despercebido. Talvez por isso o goleiro seja uma das melhores metáforas da vida. Todos nós, em algum momento, precisamos vestir as luvas da existência. “A vida não exige apenas coragem” (parafraseando o escritor Guimarães Rosa) para atacar os sonhos; exige também sabedoria para defender aquilo que conquistamos. É preciso aprender a dizer "não", proteger os nossos valores, afastar as tentações, resistir ao...

O Direito de Acreditar.

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  O Direito de Acreditar por Caio Quinderé jornalista e escritor Outro dia, parado num sinal de trânsito, observava um vendedor ambulante. Fazia calor. O movimento era pequeno. Os carros passavam apressados e poucos notavam sua presença. Ainda assim, ele ajeitava tudo com cuidado, alinhava os produtos e reposicionava outro. Havia naquele gesto uma convicção silenciosa de que alguém iria parar, olhar e comprar. Talvez não vendesse naquele dia. Talvez vendesse o suficiente para voltar no dia seguinte. Mas estava ali. E havia naquela cena uma característica que, para mim, explica o Brasil: a extraordinária capacidade de acreditar. O brasileiro acredita. Acredita quando as circunstâncias recomendam cautela. Acredita quando os números não fecham. Acredita quando os especialistas apontam dificuldades e quando o caminho parece mais longo do que deveria ser. Há quem chame isso de teimosia. Outros preferem dizer que é excesso de otimismo. Mas quem conhece o Brasil de perto sabe que é algo d...

O Tempo Debaixo do Pau-Brasil

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  por Caio Quinderé jornalista e escritor Na última sexta-feira, saí de casa apressado. A ansiedade tinha endereço certo: a editora onde me aguardava para entregar o “boneco” do meu próximo livro. Quem escreve conhece bem essa expectativa. Ver um livro ganhar forma é como encontrar, pela primeira vez, um filho que durante meses habitou apenas a imaginação. Cheguei ao destino e encontrei as portas fechadas. Por alguns instantes, pensei ter errado o horário. Depois lembrei: era ponto facultativo, um daqueles dias que o calendário empurra para dentro do feriado de Corpus Christi, criando um intervalo silencioso entre o trabalho e o descanso. Enquanto eu ainda calculava o contratempo, um rapaz que passava pela rua me disse, com a tranquilidade de quem conhece os ritmos do lugar: — Espere um pouco. Daqui a pouco eles abrem . E eu esperei. Ao lado da editora havia um majestoso pau-brasil. Centenário, alto, largo de tronco e generoso de sombra. Suas raízes expostas desenhavam sobre a terr...

Edgar Morin e a arte de compreender a complexidade humana

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A humanidade perdeu, na última sexta-feira, uma de suas mais luminosas referências intelectuais. Edgar Morin, filósofo, antropólogo e sociólogo francês, atravessou mais de um século de transformações históricas sem jamais abandonar a curiosidade, a capacidade de diálogo e a esperança no ser humano. Sua partida encerra uma trajetória extraordinária, mas deixa um legado que continuará iluminando gerações. Morin foi muito mais do que um pensador. Foi um intérprete da condição humana. Em um tempo marcado por especializações cada vez mais estreitas, ele ousou defender a necessidade de conectar saberes, compreender as relações entre as partes e o todo, entre o indivíduo e a sociedade, entre a ciência e a vida. Seu maior legado talvez esteja sintetizado no conceito que o tornou mundialmente reconhecido: o Pensamento Complexo. Para Edgar Morin, a realidade não poderia ser reduzida a explicações simplistas. O mundo é tecido por múltiplas conexões, incertezas, contradições e interdependências. C...

A Arte de contnuar

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Outro dia vi uma mulher varrendo a calçada enquanto o mundo parecia desabar dentro do celular dela. O aparelho tocava notícias ruins em sequência: guerra, inflação, escândalo político, tragédia climática, violência urbana, intolerância ideológica, vídeos curtos ensinando felicidade instantânea e ódio imediato. Ainda assim, ela seguia varrendo as folhas secas da rua com uma serenidade íntima, como quem soubesse que o país não se sustenta nos discursos inflamados da internet , mas no gesto silencioso de quem continua.  Pensei nisso o dia inteiro. O brasileiro talvez seja um dos maiores especialistas mundiais na arte de resistir. Não essa resistência teatral dos slogans publicitários, nem a superação plastificada das palestras motivacionais. Falo da resistência anônima, cotidiana, invisível. Aquela que mora na senhora que pega dois ônibus lotados para trabalhar e ainda encontra força para perguntar ao vizinho: “Tudo bem por aí?” . Existe uma filosofia profunda no pedreiro que trabalh...

Entre acentos e palavras

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 Acesse no jornal O Estado. https://oestadoce.com.br/opiniao/entre-acentos-e-palavras/ Houve um tempo em que pensei que o português fosse uma casa, de portas altas e janelas que rangem com o tempo, onde cada cômodo guarda um eco. A gente entra menino, tropeça nos tapetes, esbarra nos móveis, bate a cabeça nos acentos. Ou deveria ser pés e tornozelos nos assentos. Seguimos, e vamos falando até entender que ali dentro nada é exatamente o que parece; mas tudo encontra um sentido quando se escuta com paciência. Outro dia, por exemplo, me peguei implicando com esse pequeno traço que governa destinos: o acento. Um risco mínimo, desses que cabem na ponta do lápis, porém muda tudo. Entre doidos e doídos há mais que uma diferença gráfica; há um abismo humano. Um se perde da razão, o outro se perde de si. E o curioso é que, na pressa cotidiana, basta um descuido para que a dor vire desordem. Ou o contrário. Há quem diga que acento é detalhe, principalmente com essa forma de escrita, o WhatAp...

Adeus de um Aremesso Infinito

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  Adeus de um Arremesso Infinito Há despedidas que não cabem no calendário. Elas acontecem dentro da gente, quando o silêncio ocupa o lugar de um som que parecia eterno. A partida de Oscar Schmidt tem um pouco disso: não é apenas a ausência de um atleta, mas a sensação de que um pedaço da nossa memória coletiva atravessou a quadra do tempo e desapareceu no túnel dos vestiários. Para quem cresceu vendo o Brasil se reconhecer em seus heróis esportivos, Oscar não era só um jogador de basquete. Era uma espécie de bandeira humana tremulando dentro das quadras. Cada arremesso seu carregava mais do que a bola: levava consigo um país inteiro, com suas esperanças e seus sonhos.  Aquela insistência teimosa de acreditar que é possível ser grande. Ser brasileiro. Nos anos em que o Brasil ainda aprendia a se olhar com orgulho (e esse é um exercício que precisa ser cultivado), Oscar surgia como um gesto luminoso. Alto, obstinado, dono de um arremesso buscando conversar com o destino. Quando...

Certa Pressa

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Tenho a impressão de que as pessoas andam com uma urgência dentro do peito. Não sei exatamente a urgência de quê. Talvez de viver, porém desconfio que seja mais uma urgência de parecer que vivem. Explico: outro dia vi um homem discutindo com um motorista no meio da rua. Nada muito grave: uma buzinada mais longa, um gesto atravessado pela janela, essas pequenas tragédias urbanas que duram menos de dois minutos e deixam um rastro de irritação no ar. Cada um defendia seu território com uma convicção admirável, como se o destino da humanidade dependesse daquela esquina. Cada um andava ocupado demais defendendo alguma coisa invisível. Defendendo a opinião, a razão, a imagem, a ideia de sucesso. Até defendendo aquilo que ainda não somos, mas gostaríamos muito de parecer ser. E nisso ficamos duros demais. A empatia, uma espécie de delicadeza da atenção, vai rareando. Escutar o outro exige uma pausa, e a pausa virou artigo raro.  Estamos sempre em movimento. Mesmo quando estamos sentados. ...

O Império e o Crepúsculo do Mundo

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Há noites em que o mundo parece um mapa aceso. Não um mapa de geografia, desses que aprendemos na escola, mas um mapa de tensões. Linhas invisíveis que atravessam continentes e transformam cidades em manchetes. De um lado, a guerra entre Rússia e Ucrânia já pouco esquecida pela mídia, porém parece arrastar consigo fantasmas antigos da história europeia. Mais ao sul, o eterno atrito entre Irã e o Ocidente. Na América Latina, a pressão constante sobre a Venezuela, país cercado por sanções, disputas políticas e interesses estratégicos. Nos discursos oficiais, fala-se em democracia, segurança, estabilidade, petróleo e recursos naturais. São palavras grandes, usadas como placas de trânsito para orientar a opinião pública, Entretanto, às vezes, a sensação é outra. Parece que estamos assistindo ao cansaço de um império. Durante quase um século, os Estados Unidos foram o grande eixo do mundo. Depois da Segunda Guerra, ergueram uma ordem internacional que orbitava ao redor do dólar, de suas uni...

O Silêncio virou Grito

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Março chega sempre com flores nas vitrines e discursos prontos nos palcos. Falam da delicadeza, da força, da beleza das mulheres — palavras bonitas, alinhadas como buquês. Mas, enquanto os elogios são distribuídos em cartões e redes sociais, uma outra contagem segue correndo silenciosa nos noticiários: a das mulheres que não voltaram para casa. Muitas vezes, (com grande recorrência ultimamente) o Brasil e o mundo amanhecem com a notícia que já não deveria existir. Mais um nome. Mais uma vida interrompida. Mais um caso de feminicídio. Exemplos se multiplicam e repercutiram com assassinatos cometidos por parceiros ou ex-parceiros, como o caso da jovem grega Kyriaki Griva, morta pelo ex-companheiro perto de uma delegacia após pedir ajuda à polícia. E também o ocorrido em Itumbiara (Goiás), de um homem que matou a ex-esposa a tiros dentro de casa no bairro Jardim Europa, e, em seguida, tirou a própria vida.  Só para citar casos recentes que assustam com a frieza da crueldade. Mas o que...

Carnaval, raiz do Brasil.

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  O carnaval não começa na avenida. Ele começa muito antes —  no quintal varrido, no barracão que respira cola, tinta e conversa, no rádio e novas mídias ligadas enquanto mãos calejadas transformam papel, tecido e sonho em promessa. O carnaval nasce onde a vida é coletiva, onde ninguém faz nada sozinho, onde cada gesto carrega uma herança antiga que pulsa sem pedir licença. É festa, sim. Mas é também memória. Há um sangue ancestral correndo sob o brilho das lantejoulas. Um tambor que não toca apenas ritmo: toca história. Cada batida parece dizer que o Brasil não é só o que se vê, é o que resiste. É o que se reinventa. O carnaval é o idioma de um povo que aprendeu a transformar dor em dança, dificuldade em fantasia, sobrevivência em celebração. Nos barracões, o tempo se dilata. Ali, trabalhadores e trabalhadoras esculpem alegria com precisão de quem sabe que a beleza também é um ofício. Cada costura é um pacto silencioso: fazer florescer grandeza com o que se tem. O luxo que at...

O avesso da honra, uma tragédia humana.

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O país acordou atravessado por uma notícia que não cabe inteira em nenhuma manchete. Um homem matou os próprios filhos e depois tirou a própria vida. As primeiras explicações correram com a velocidade que só a dor e o escândalo conhecem: traição, honra ferida, vingança íntima. Em poucas horas, as redes já tinham um tribunal armado, réus definidos, sentenças proferidas. Tudo muito rápido. Rápido demais para algo que exige silêncio. O que mais assusta não é apenas o crime (já terrível por si), mas o quanto ele ativa fantasmas antigos que a gente jura ter superado. A ideia de honra masculina que atravessa séculos legitimando violências, reaparece como um eco incômodo. Mudam os séculos, mudam as leis, mas certas sombras parecem sobreviver no inconsciente coletivo, esperando um gatilho para voltar a respirar. Não escrevo como juiz. Não é meu lugar absolver ou condenar. Mas sou alguém que tenta compreender o cenário humano que se revela quando a tragédia rasga o cotidiano. E há algo aqui que...

Bad Bunny e a América sem fronteira

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  Houve um instante curioso no espetáculo mais barulhento do planeta em que um porto-riquenho decidiu lembrar ao público algo perigosamente simples: a América não cabe numa bandeira só. Bad Bunny surgiu como quem atravessa fronteiras sem passaporte. Não trouxe mapas, trouxe uma palavra antiga: América. Inteira. Sem hífen, sem muro, sem rodapé diplomático. América como um corpo continental — sul, centro e norte — respirando no mesmo pulmão geológico. E ali, no Super Bowl, esse altar contemporâneo do espetáculo, ele fez algo quase herético: cantou união num lugar acostumado a celebrar disputas. Foi bonito. E, por isso mesmo, irônico. Porque enquanto os refletores desenhavam um continente imaginário no ar, havia um silêncio curioso sobre tudo aquilo que insiste em nos separar: sotaques, moedas, cicatrizes históricas, a eterna mania humana de transformar linhas imaginárias em trincheiras morais. O show dizia: somos um só território. A história, essa senhora sem maquiagem, sussurrava: s...

O pão, o vinho e o silêncio que fala

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  Acordei com a notícia atravessando o dia como um ruído difícil de ignorar. O caso do cão Orelha já tinha se espalhado: imprensa nacional, internacional, redes sociais inflamadas, opiniões prontas, indignações em série. Era impossível não sentir algo. Mas, enquanto lia e relia manchetes, me veio uma pergunta mais profunda do que qualquer julgamento: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de sentir? Não escrevo e nem falo para condenar ou absolver ninguém. A justiça humana segue seus caminhos e precisa seguir. O que me inquieta não é o veredito, mas o espelho. Toda tragédia pública é, de alguma forma, um convite silencioso para que a gente olhe o cenário maior: o estado da nossa consciência. Pensei então no pão e no vinho. No gesto antigo, simbólico, profundamente humano. O pão que se reparte lembra que a vida é partilha. O vinho que se oferece lembra que a vida é presença, intensidade, sacrifício, transformação. Quando esses símbolos atravessam a história cristã, eles não su...