Carnaval, raiz do Brasil.
O carnaval não começa na avenida.
Ele começa muito antes — no quintal varrido, no barracão que respira cola, tinta e conversa, no rádio e novas mídias ligadas enquanto mãos calejadas transformam papel, tecido e sonho em promessa. O carnaval nasce onde a vida é coletiva, onde ninguém faz nada sozinho, onde cada gesto carrega uma herança antiga que pulsa sem pedir licença.
É festa, sim. Mas é também memória.
Há um sangue ancestral correndo sob o brilho das lantejoulas. Um tambor que não toca apenas ritmo: toca história. Cada batida parece dizer que o Brasil não é só o que se vê, é o que resiste. É o que se reinventa. O carnaval é o idioma de um povo que aprendeu a transformar dor em dança, dificuldade em fantasia, sobrevivência em celebração.
Nos barracões, o tempo se dilata. Ali, trabalhadores e trabalhadoras esculpem alegria com precisão de quem sabe que a beleza também é um ofício. Cada costura é um pacto silencioso: fazer florescer grandeza com o que se tem. O luxo que atravessa a avenida carrega o suor invisível de quem entende que arte não é privilégio, é ferramenta de dignidade.
Quando a festa explode, não é apenas alegria que se espalha. É pertencimento.
O carnaval cria pontes entre desconhecidos. Um sorriso compartilhado vira território comum. A rua deixa de ser passagem e se torna encontro. Há uma ética delicada na folia: cuidar do outro para que a alegria dure. Solidariedade que não se anuncia, se pratica. Um copo d’água oferecido, um abraço em quem tropeça, uma roda que se abre para quem chega.
E, enquanto o coração coletivo pulsa, a cidade também se move. O carnaval gera trabalho, sustento, circulação de ideias e renda. É economia viva, feita de criatividade, talento e colaboração. Sustenta comunidades, fortalece vínculos, mostra que cultura não é adorno. É estrutura. É o motor que faz girar sonhos e oportunidades.
Mas talvez o maior milagre do carnaval seja este:
Por alguns dias, o Brasil se reconhece no espelho da própria potência. Não como caricatura, mas como expressão profunda de diversidade, invenção e coragem. A festa revela que a identidade brasileira não é uniforme, é plural, ruidosa, colorida, contraditória e, ainda assim, profundamente harmoniosa.
Quando o último tambor silencia, algo permanece.
Fica no corpo uma lembrança de que a alegria é também um ato de resistência. Que celebrar juntos é uma forma de dizer: estamos aqui, seguimos criando, seguimos cuidando uns dos outros.
O carnaval passa, mas a comunidade que o constrói continua. E é nela que a festa realmente vive.
Caio Quinderé, 16 de fevereiro de 2026.

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