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Mostrando postagens de dezembro, 2025

Brigitte Bardot, ou o corpo que virou memória

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  Brigitte Bardot, ou o corpo que virou memória Não a vi nascer no cinema. Quando cheguei a ela, Brigitte Bardot já era um mito, uma lembrança luminosa projetada em películas antigas, dessas que carregam poeira, desejo e silêncio. Não a conheci no calor do escândalo, nem no frenesi da juventude que abalou a França dos anos 1950. Eu a encontrei depois — maduro o suficiente para compreender que certos corpos não envelhecem: apenas se transformam em ideia. Brigitte não foi apenas atriz. Foi presença. Um estado de espírito. Um sopro de liberdade que atravessou a tela quando o mundo ainda engatinhava para admitir o desejo feminino como potência e não como culpa. Em E Deus Criou a Mulher , ela não interpretava um papel — ela inaugurava um gesto. Um modo de estar no mundo com o corpo inteiro, sem pedir licença, sem pedir desculpas. Era carne e luz. Era instinto e invenção. Quando a vi pela primeira vez, já não era a jovem que incendiou Cannes. Era imagem antiga, restaurada, quase etérea. ...

Crônica para Martha

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Martha partiu em silêncio, como quem conhece o tempo exato de sair de cena. No dia 26 de dezembro de 2025, quando o mundo ainda respirava os restos de um ano cansado, ela seguiu para outro palco, desses onde a luz não se apaga, apenas muda de tom. E fiquei com a sensação de que algo essencial do teatro cearense havia se recolhido, como uma cortina que desce devagar, respeitosa, depois do último aplauso. Martha Maria, nascida em Massapê, pertenceu ao mundo. Ao mundo do teatro, sobretudo. Havia nela uma elegância que não vinha do gesto estudado, mas da entrega. Era atriz de corpo inteiro, dessas que carregam o texto não apenas na voz, mas na respiração, no silêncio entre uma fala e outra. Tinha presença, essa palavra tão gasta, mas tão rara, e uma verdade cênica que não se ensinava: se reconhecia. Me lembro de vê-la em A Donzela Desprezada , do grupo Balaio, em 1995. Lembro do impacto. Da força contida. Do modo como ocupava o espaço sem precisar disputar nada. Havia ali uma atriz madura,...

A arte de resistir

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  Este ano não termina. Ele se estica como uma estrada antiga, daquelas que parecem não constar em mapa algum, mas insistem em seguir adiante. Uma estrada longa, sinuosa, coberta por um nevoeiro espesso que não permite ver o próximo quilômetro. Ás vezes, nem o próximo passo. É um ano que se arrasta e, ao mesmo tempo, corre. Um ano que não se despede, apenas continua. Todos os dias acontece alguma coisa. E não é pouco. São acontecimentos que se atropelam, se sobrepõem, se anulam e se repetem. Quando pensamos que já vimos de tudo, surge mais um fato, mais uma notícia, mais uma crise, como se o calendário tivesse perdido o controle do próprio ritmo. Vivemos uma sucessão de espantos. Não há tempo para digerir o espanto anterior. Ele já foi substituído por outro, maior, mais barulhento, mais inquietante. Caminhamos, então, como quem atravessa uma estrada coberta de neblina cerrada. Não enxergamos o horizonte, não vemos o fim, não sabemos se há curva, abismo ou clareira logo adiante. And...

A Arte de Ficar

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  No fim do ano, aprendi a gostar do que não faz barulho. Houve um tempo em que dezembro me empurrava para a estrada. Era quase uma obrigação moral: malas, mapas mentais, horários apertados, a esperança de que a felicidade estivesse sempre a alguns quilômetros de distância. Eu pegava a estrada achando que mudar de paisagem mudaria também o ritmo do coração. Pegava. Ficava horas parado. Engarrafamentos intermináveis, faróis acesos como vaga-lumes cansados, terminais de ônibus cheios de pressa, aeroportos lotados de gente e de ansiedade. Tudo em nome da virada do ano, como se o calendário exigisse movimento. Hoje, não. Hoje eu fico. Ficar virou um gesto de maturidade, talvez até de rebeldia silenciosa. Ficar em casa, no meu espaço, no território conhecido do sofá, da cozinha, do quarto com suas manias e memórias. Ficar sem relógio, sem mala, sem a obrigação de atravessar estradas para provar que estou vivo. Descobri que o conforto tem uma filosofia própria: ele ensina a desacelerar. ...

Com os dois pés no tempo

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  Mais um ano vai se despedindo pela porta dos fundos, quase sem fazer barulho, como quem não quer atrapalhar a festa que já se arma do lado de lá do calendário. E que festa, que festa nos espera! Mas, eu, confesso, gosto desses instantes de passagem. Eles têm algo de esquina: a gente para, olha para os dois lados do tempo e decide atravessar. Sim, é inevitável prosseguir.Faz parte ao compromisso firmado com o tempo. Todo fim de ano eu penso nisso: entrar com o pé direito. Mas qual pé é o direito da vida? O que pisa com mais coragem ou o que tropeça menos? Às vezes acho que o importante não é qual pé vai primeiro, mas a decisão de ir. De colocar o pé na estrada, sentir o chão, aceitar a poeira, o sol, o imprevisto. Também já entrei em anos novos com o pé na porta — impaciente, exigente, querendo que tudo mudasse da noite para o dia. Em outros, confesso, meti o pé na jaca sem o menor pudor, exagerando nos sonhos, nas promessas, nas taças levantadas mais pela ilusão do que pela certe...

Versos e Contraversos, Ou seria melhor, controversos.

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Vivemos um tempo de espantos. Há dias em que o Brasil parece caminhar de lado, tropeçando nos próprios passos, como se fosse guiado por um maestro indeciso, batuta tremendo na mão. E eu, que escrevo para entender o mundo — ou ao menos para não me perder nele — observo a cena política como quem assiste a um teatro improvisado: cada ator declama sua fala, mas as palavras já não se encaixam no enredo. No meio desse país atravessado por tensões, surge o episódio que sacudiu Brasília: a decisão do ministro Alexandre de Moraes, interpretada e repercutida em todos os cantos. De um lado, a Câmara votando. Do outro, o ministro anulando a votação e mantendo a cassação de Carla Zambelli. E, no meio desse labirinto jurídico, uma multidão tentando entender quem tem razão — ou se essa palavra, razão , ainda tem alguma serventia na praça pública. O que me chama a atenção não é apenas a decisão em si, mas o eco que ela provoca: juristas comentam, articulistas explicam, emissoras repetem, redes sociais...

A Palavra Antes da Palavra

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Há dias em que sinto que a escrita é um ofício antigo, desses que carregam o pó das estradas e o silêncio das madrugadas. Sou servidor da palavra — não no sentido solene dos templos, mas como quem varre um pátio ao amanhecer, atento ao que o vento deixou para trás. Porque antes da palavra, sei, existe o pensamento. E antes do pensamento, talvez exista apenas o susto de existir. Descartes dizia que pensamos, logo somos. Mas às vezes, olhando o mundo que se desdobra diante de nós, me pergunto: o que somos quando os pensamentos se embaralham? Quando a lógica se perde em corredores onde a luz não alcança? Quando o verbo — esse pequeno espelho da alma — se fragmenta como vidro quebrado? Escrevo, e ao escrever procuro o fio que costura o humano. Tento entender esse perfil psicológico que muda de forma como nuvem. A palavra nasce, mas nasce inquieta. Ela tenta explicar uma humanidade que fala alto demais e escuta de menos. Uma humanidade que pede pressa enquanto o pensamento, velho almira...

O país que caminha com os próprios amarrados

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Dizem que o Brasil é um país de milagres. E talvez seja mesmo, porque sobreviver a certos congressistas é quase um ato de fé — fé na paciência, fé na esperança e, principalmente, fé de que um dia alguém explicará como chegamos a um parlamento tão… digamos… criativo na arte de ser nocivo. Ligo a televisão e lá está ele: o Congresso Nacional, esse grande teatro onde ninguém ganha prêmio por atuação, mas muitos deveriam ganhar por insistência. É uma coreografia de discursos vazios, negociações por baixo dos panos e uma convicção profunda de que o povo brasileiro é, no máximo, um detalhe inconveniente. Hugo Motta aparece no noticiário com aquele ar de quem está sempre tentando parecer firme, embora o país inteiro saiba que firme mesmo só está a aliança dele com um pedaço da direita que opera como se política fosse balcão de negócios. Não é que ele seja um vilão clássico — daqueles com capa, risada maligna e plano mirabolante. É pior: é o tipo de personagem sem pulso, sem brilho, sem gr...

A Janela que Dava para John

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  Nunca fui de ter ídolos. Essa palavra sempre me pareceu pesada, quase uma entrega cega demais. Mas havia, e talvez ainda haja, figuras que atravessam a gente sem pedir licença. John Lennon foi uma delas. Não como um santo, não como um profeta, mas como um daqueles raros seres que transformam música em vento e, de alguma forma misteriosa, sopram em direção à vida da gente. Eu tinha doze anos quando John morreu. Doze anos: a idade em que o mundo ainda cabe inteiro numa mochila escolar e, ao mesmo tempo, parece grande demais para compreender. Lembro da notícia como se tivesse sido dita em voz baixa, com a delicadeza que antecede um abalo. John Lennon assassinado em Nova Iorque. Uma frase simples, mas com peso de pedra lançada no fundo de um lago. Senti um vazio. Um silêncio frio. Algo tinha mudado, embora eu não soubesse nomear o quê. Fui até a janela do apartamento na Constante Ramos, em Copacabana, onde morava com minha mãe, como se aquela fresta pudesse me aproximar de Manhattan....