Crônica para Martha
Martha partiu em silêncio, como quem conhece o tempo exato de sair de cena. No dia 26 de dezembro de 2025, quando o mundo ainda respirava os restos de um ano cansado, ela seguiu para outro palco, desses onde a luz não se apaga, apenas muda de tom. E fiquei com a sensação de que algo essencial do teatro cearense havia se recolhido, como uma cortina que desce devagar, respeitosa, depois do último aplauso.
Martha Maria, nascida em Massapê, pertenceu ao mundo. Ao mundo do teatro, sobretudo. Havia nela uma elegância que não vinha do gesto estudado, mas da entrega. Era atriz de corpo inteiro, dessas que carregam o texto não apenas na voz, mas na respiração, no silêncio entre uma fala e outra. Tinha presença, essa palavra tão gasta, mas tão rara, e uma verdade cênica que não se ensinava: se reconhecia.
Me lembro de vê-la em A Donzela Desprezada, do grupo Balaio, em 1995. Lembro do impacto. Da força contida. Do modo como ocupava o espaço sem precisar disputar nada. Havia ali uma atriz madura, consciente do seu tempo e do seu ofício. Antes e depois vieram tantos outros trabalhos que ajudaram a desenhar a história do nosso teatro: Latin Love (1981), Salomé (1988), Édipo Rei (1991). E, claro, a marcante Elvira, na versão musical de O Morro do Outro, de Eduardo Campos, sob a batuta sensível de Haroldo Serra — espetáculo que ecoou Fortaleza e atravessou o país, chegando ao Rio de Janeiro como quem leva consigo a dignidade de uma cena inteira. Martha também fez A Casa de Bernarda Alba, na montagem da Comédia Cearense. Recebeu, em 1997, o Troféu Carlos Câmara, o reconhecimento majestoso do nosso teatro. Mas mais do que prêmios, ela colecionou respeito. E isso não se ganha com técnica apenas: vem da ética, da entrega, do compromisso silencioso com a arte.
Hoje, ao pensar em Martha, penso numa atriz que não buscava holofotes, mas iluminava o palco. Uma mulher de teatro no sentido mais pleno da palavra. Daquelas que fazem falta não apenas pelo que fizeram, mas pelo que eram. Sua ausência deixa um silêncio que dói, mas também um rastro luminoso, desses que orientam quem fica.
Martha partiu, mas permanece. No gesto aprendido, na memória de quem a viu, no afeto de quem contracenou, no imaginário de um teatro que não se explica sem ela. E talvez seja isso a verdadeira eternidade: continuar em cena, mesmo depois do último aplauso.
Caio Quinderé, 28 de dezembro de 2025.

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