A arte de resistir

 


Este ano não termina.

Ele se estica como uma estrada antiga, daquelas que parecem não constar em mapa algum, mas insistem em seguir adiante. Uma estrada longa, sinuosa, coberta por um nevoeiro espesso que não permite ver o próximo quilômetro. Ás vezes, nem o próximo passo. É um ano que se arrasta e, ao mesmo tempo, corre. Um ano que não se despede, apenas continua.

Todos os dias acontece alguma coisa. E não é pouco. São acontecimentos que se atropelam, se sobrepõem, se anulam e se repetem. Quando pensamos que já vimos de tudo, surge mais um fato, mais uma notícia, mais uma crise, como se o calendário tivesse perdido o controle do próprio ritmo. Vivemos uma sucessão de espantos. Não há tempo para digerir o espanto anterior. Ele já foi substituído por outro, maior, mais barulhento, mais inquietante.

Caminhamos, então, como quem atravessa uma estrada coberta de neblina cerrada. Não enxergamos o horizonte, não vemos o fim, não sabemos se há curva, abismo ou clareira logo adiante. Andamos guiados por instinto, memória e uma esperança quase teimosa de que o caminho, em algum ponto, vai se abrir. Cada passo é um ato de fé. Cada amanhecer, um exercício de resistência.

Esse ano não pesa apenas pelo que aconteceu, mas pelo que insiste em permanecer: a incerteza, o cansaço coletivo, a sensação de que o mundo anda em suspensão, como se estivesse sempre prestes a acontecer algo definitivo, mas nunca acontece. É um tempo que não se resolve, não se encerra, não se fecha em si. Um tempo suspenso, esticado, prolongado além do razoável.

Talvez por isso ele nos canse tanto. Não pelo excesso de dias, mas pela falta de pausas. Pela ausência de respiro. Pela impressão de que estamos sempre atravessando, nunca chegando. É como se a vida tivesse virado uma travessia contínua, sem placas, sem marcos, sem promessas claras de chegada.

E, ainda assim, seguimos. Porque há algo profundamente humano em continuar andando mesmo quando a paisagem se dissolve. Seguimos porque aprendemos, talvez à força, que desistir não encurta a estrada. Seguimos porque, mesmo na neblina mais espessa, existe uma intuição silenciosa que nos empurra para frente. Uma fé discreta, quase invisível, mas persistente.

E então, quase sem perceber, começa a surgir um outro tempo no horizonte. Um novo número no calendário. Um novo ano que se anuncia tímido, ainda frágil, mas carregado de expectativa. O novo ano desponta como quem pede licença, trazendo consigo uma promessa silenciosa de recomeço. Não como uma solução mágica, mas como possibilidade. Como quem diz: ainda há espaço para recomeçar, ainda há chão para construir, ainda há luz por detrás da névoa.

Talvez 2026 não seja o ano da plenitude, mas pode ser o ano da virada interior. O ano em que a estrada, enfim, comece a se abrir. O ano em que a neblina rareia e permite, mesmo que de longe, vislumbrar o contorno de um horizonte. E só isso: a possibilidade de enxergar adiante, já é, por si só, uma forma de esperança.

28 de dezembro de 2025.

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