O país que caminha com os próprios amarrados
Dizem que o Brasil é um país de milagres. E talvez seja mesmo, porque sobreviver a certos congressistas é quase um ato de fé — fé na paciência, fé na esperança e, principalmente, fé de que um dia alguém explicará como chegamos a um parlamento tão… digamos… criativo na arte de ser nocivo.
Ligo a televisão e lá está ele: o Congresso Nacional, esse grande teatro onde ninguém ganha prêmio por atuação, mas muitos deveriam ganhar por insistência. É uma coreografia de discursos vazios, negociações por baixo dos panos e uma convicção profunda de que o povo brasileiro é, no máximo, um detalhe inconveniente.
Hugo Motta aparece no noticiário com aquele ar de quem está sempre tentando parecer firme, embora o país inteiro saiba que firme mesmo só está a aliança dele com um pedaço da direita que opera como se política fosse balcão de negócios. Não é que ele seja um vilão clássico — daqueles com capa, risada maligna e plano mirabolante. É pior: é o tipo de personagem sem pulso, sem brilho, sem grandeza... apenas conduzido pela maré turva dos interesses que o cercam.
E o mais assustador é perceber que, historicamente, talvez nunca tenhamos tido um Congresso tão ineficiente moralmente, tão descolado da vida real, tão orgulhoso da sua própria incapacidade de representar alguém que não seja a si mesmo. A Câmara e o Senado parecem, hoje, uma espécie de condomínio de luxo político onde se vende influência como se fosse vaga de garagem.
E, enquanto isso, lá no Rio de Janeiro, outro capítulo da nossa novela institucional se desenrola: o caso de Ricardo Bacellar, presidente da ALERJ, mais um exemplo de como o Estado flerta — há anos — com uma proximidade desconfortável entre poder político e grupos que deveriam estar a quilômetros da vida pública. Nada surpreende mais o brasileiro, e isso, por si só, já é o mais trágico de tudo.
A milícia, essa sombra que atravessa vielas e gabinetes, não é apenas um problema do Rio. É um símbolo. Um sintoma. Um aviso de que a democracia brasileira anda com o tornozelo torcido, apoiada em muletas improvisadas, enquanto políticos fazem pose de estadistas em fotos oficiais.
E o povo? Ah, o povo vai vivendo. Entre um escândalo e outro, entre uma votação suspeita e uma entrevista que não responde nada, seguimos trabalhando, criando, inventando esperança. Porque se há algo que o Brasil sabe fazer é sobreviver ao Brasil.
E talvez seja aí que mora o milagre.

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