O pão, o vinho e o silêncio que fala
Acordei com a notícia atravessando o dia como um ruído difícil de ignorar. O caso do cão Orelha já tinha se espalhado: imprensa nacional, internacional, redes sociais inflamadas, opiniões prontas, indignações em série. Era impossível não sentir algo. Mas, enquanto lia e relia manchetes, me veio uma pergunta mais profunda do que qualquer julgamento: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de sentir? Não escrevo e nem falo para condenar ou absolver ninguém. A justiça humana segue seus caminhos e precisa seguir. O que me inquieta não é o veredito, mas o espelho. Toda tragédia pública é, de alguma forma, um convite silencioso para que a gente olhe o cenário maior: o estado da nossa consciência. Pensei então no pão e no vinho. No gesto antigo, simbólico, profundamente humano. O pão que se reparte lembra que a vida é partilha. O vinho que se oferece lembra que a vida é presença, intensidade, sacrifício, transformação. Quando esses símbolos atravessam a história cristã, eles não su...