Certa Pressa
Tenho a impressão de que as pessoas andam com uma urgência dentro do peito. Não sei exatamente a urgência de quê. Talvez de viver, porém desconfio que seja mais uma urgência de parecer que vivem. Explico: outro dia vi um homem discutindo com um motorista no meio da rua. Nada muito grave: uma buzinada mais longa, um gesto atravessado pela janela, essas pequenas tragédias urbanas que duram menos de dois minutos e deixam um rastro de irritação no ar. Cada um defendia seu território com uma convicção admirável, como se o destino da humanidade dependesse daquela esquina. Cada um andava ocupado demais defendendo alguma coisa invisível. Defendendo a opinião, a razão, a imagem, a ideia de sucesso. Até defendendo aquilo que ainda não somos, mas gostaríamos muito de parecer ser. E nisso ficamos duros demais. A empatia, uma espécie de delicadeza da atenção, vai rareando. Escutar o outro exige uma pausa, e a pausa virou artigo raro. Estamos sempre em movimento. Mesmo quando estamos sentados. ...