O parentesco secreto das horas
Esta crônica sobre a estranha maneira de como o tempo reune a familia. Porque há parentes que a gente conhece pelo nome, outros pelo sangue. Alguns, mais raros, a gente encontra por acaso, quando já passaram tantas décadas que o próprio acaso começa a parecer uma conspiração do destino. Foi assim que Francisco Gil veio ao meu encontro. Ele não bateu à porta, naturalmente. Os mortos de família raramente têm essas delicadezas. Preferem aparecer de outro modo: em uma página esquecida, em um sobrenome atravessando gerações, em uma fotografia antiga, em uma certidão amarelada, em uma história que alguém contou pela metade. Às vezes, chegam disfarçados de pesquisa genealógica. A gente procura os antepassados e termina sendo procurado por eles. Francisco Gil Castelo Branco era piauiense, como eu. Viveu no século XIX, foi promotor de Justiça, escritor e homem de horizontes que não cabiam inteiramente na paisagem onde nasceu, lá no municipio de José de Freitas. A vida o levou ...