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O Império e o Crepúsculo do Mundo

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Há noites em que o mundo parece um mapa aceso. Não um mapa de geografia, desses que aprendemos na escola, mas um mapa de tensões. Linhas invisíveis que atravessam continentes e transformam cidades em manchetes. De um lado, a guerra entre Rússia e Ucrânia já pouco esquecida pela mídia, porém parece arrastar consigo fantasmas antigos da história europeia. Mais ao sul, o eterno atrito entre Irã e o Ocidente. Na América Latina, a pressão constante sobre a Venezuela, país cercado por sanções, disputas políticas e interesses estratégicos. Nos discursos oficiais, fala-se em democracia, segurança, estabilidade, petróleo e recursos naturais. São palavras grandes, usadas como placas de trânsito para orientar a opinião pública, Entretanto, às vezes, a sensação é outra. Parece que estamos assistindo ao cansaço de um império. Durante quase um século, os Estados Unidos foram o grande eixo do mundo. Depois da Segunda Guerra, ergueram uma ordem internacional que orbitava ao redor do dólar, de suas uni...

O Silêncio virou Grito

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Março chega sempre com flores nas vitrines e discursos prontos nos palcos. Falam da delicadeza, da força, da beleza das mulheres — palavras bonitas, alinhadas como buquês. Mas, enquanto os elogios são distribuídos em cartões e redes sociais, uma outra contagem segue correndo silenciosa nos noticiários: a das mulheres que não voltaram para casa. Muitas vezes, (com grande recorrência ultimamente) o Brasil e o mundo amanhecem com a notícia que já não deveria existir. Mais um nome. Mais uma vida interrompida. Mais um caso de feminicídio. Exemplos se multiplicam e repercutiram com assassinatos cometidos por parceiros ou ex-parceiros, como o caso da jovem grega Kyriaki Griva, morta pelo ex-companheiro perto de uma delegacia após pedir ajuda à polícia. E também o ocorrido em Itumbiara (Goiás), de um homem que matou a ex-esposa a tiros dentro de casa no bairro Jardim Europa, e, em seguida, tirou a própria vida.  Só para citar casos recentes que assustam com a frieza da crueldade. Mas o que...

Carnaval, raiz do Brasil.

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  O carnaval não começa na avenida. Ele começa muito antes —  no quintal varrido, no barracão que respira cola, tinta e conversa, no rádio e novas mídias ligadas enquanto mãos calejadas transformam papel, tecido e sonho em promessa. O carnaval nasce onde a vida é coletiva, onde ninguém faz nada sozinho, onde cada gesto carrega uma herança antiga que pulsa sem pedir licença. É festa, sim. Mas é também memória. Há um sangue ancestral correndo sob o brilho das lantejoulas. Um tambor que não toca apenas ritmo: toca história. Cada batida parece dizer que o Brasil não é só o que se vê, é o que resiste. É o que se reinventa. O carnaval é o idioma de um povo que aprendeu a transformar dor em dança, dificuldade em fantasia, sobrevivência em celebração. Nos barracões, o tempo se dilata. Ali, trabalhadores e trabalhadoras esculpem alegria com precisão de quem sabe que a beleza também é um ofício. Cada costura é um pacto silencioso: fazer florescer grandeza com o que se tem. O luxo que at...

O avesso da honra, uma tragédia humana.

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O país acordou atravessado por uma notícia que não cabe inteira em nenhuma manchete. Um homem matou os próprios filhos e depois tirou a própria vida. As primeiras explicações correram com a velocidade que só a dor e o escândalo conhecem: traição, honra ferida, vingança íntima. Em poucas horas, as redes já tinham um tribunal armado, réus definidos, sentenças proferidas. Tudo muito rápido. Rápido demais para algo que exige silêncio. O que mais assusta não é apenas o crime (já terrível por si), mas o quanto ele ativa fantasmas antigos que a gente jura ter superado. A ideia de honra masculina que atravessa séculos legitimando violências, reaparece como um eco incômodo. Mudam os séculos, mudam as leis, mas certas sombras parecem sobreviver no inconsciente coletivo, esperando um gatilho para voltar a respirar. Não escrevo como juiz. Não é meu lugar absolver ou condenar. Mas sou alguém que tenta compreender o cenário humano que se revela quando a tragédia rasga o cotidiano. E há algo aqui que...

Bad Bunny e a América sem fronteira

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  Houve um instante curioso no espetáculo mais barulhento do planeta em que um porto-riquenho decidiu lembrar ao público algo perigosamente simples: a América não cabe numa bandeira só. Bad Bunny surgiu como quem atravessa fronteiras sem passaporte. Não trouxe mapas, trouxe uma palavra antiga: América. Inteira. Sem hífen, sem muro, sem rodapé diplomático. América como um corpo continental — sul, centro e norte — respirando no mesmo pulmão geológico. E ali, no Super Bowl, esse altar contemporâneo do espetáculo, ele fez algo quase herético: cantou união num lugar acostumado a celebrar disputas. Foi bonito. E, por isso mesmo, irônico. Porque enquanto os refletores desenhavam um continente imaginário no ar, havia um silêncio curioso sobre tudo aquilo que insiste em nos separar: sotaques, moedas, cicatrizes históricas, a eterna mania humana de transformar linhas imaginárias em trincheiras morais. O show dizia: somos um só território. A história, essa senhora sem maquiagem, sussurrava: s...

O pão, o vinho e o silêncio que fala

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  Acordei com a notícia atravessando o dia como um ruído difícil de ignorar. O caso do cão Orelha já tinha se espalhado: imprensa nacional, internacional, redes sociais inflamadas, opiniões prontas, indignações em série. Era impossível não sentir algo. Mas, enquanto lia e relia manchetes, me veio uma pergunta mais profunda do que qualquer julgamento: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de sentir? Não escrevo e nem falo para condenar ou absolver ninguém. A justiça humana segue seus caminhos e precisa seguir. O que me inquieta não é o veredito, mas o espelho. Toda tragédia pública é, de alguma forma, um convite silencioso para que a gente olhe o cenário maior: o estado da nossa consciência. Pensei então no pão e no vinho. No gesto antigo, simbólico, profundamente humano. O pão que se reparte lembra que a vida é partilha. O vinho que se oferece lembra que a vida é presença, intensidade, sacrifício, transformação. Quando esses símbolos atravessam a história cristã, eles não su...

O que eu venho aprendendo com a vida e posso contar

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Aprendi cedo que os lugares falam. Não em voz alta, mas em camadas: no jeito das pessoas, nos silêncios, nos gestos cotidianos e na forma como o tempo parece obedecer a outras regras. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar cultura, território e vida. Para mim, as artes sempre foram menos um conceito e mais uma experiência atravessada no corpo. No Sesc Ceará, onde trabalhei por mais de 10 anos,  essa percepção ganhou chão. Ali entendi que cultura não é evento isolado, é processo contínuo de encontro. Pessoas diferentes, histórias diversas, linguagens múltiplas convivendo no mesmo espaço me ensinaram que comunicar é, antes de tudo, criar pontes. Aprendi a escutar mais do que a explicar, a observar mais do que intervir. Foi ali que comecei a perceber que a diversidade, quando acolhida, organiza e não desordena. Depois, o caminho me levou a Almada, em Portugal, outro lado do Atlântico. Na vila de pescadores da Costa de Caparica, a vida tinha cheiro de sal e ritmo de maré. Ho...