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O que eu venho aprendendo com a vida e posso contar

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Aprendi cedo que os lugares falam. Não em voz alta, mas em camadas: no jeito das pessoas, nos silêncios, nos gestos cotidianos e na forma como o tempo parece obedecer a outras regras. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar cultura, território e vida. Para mim, as artes sempre foram menos um conceito e mais uma experiência atravessada no corpo. No Sesc Ceará, onde trabalhei por mais de 10 anos,  essa percepção ganhou chão. Ali entendi que cultura não é evento isolado, é processo contínuo de encontro. Pessoas diferentes, histórias diversas, linguagens múltiplas convivendo no mesmo espaço me ensinaram que comunicar é, antes de tudo, criar pontes. Aprendi a escutar mais do que a explicar, a observar mais do que intervir. Foi ali que comecei a perceber que a diversidade, quando acolhida, organiza e não desordena. Depois, o caminho me levou a Almada, em Portugal, outro lado do Atlântico. Na vila de pescadores da Costa de Caparica, a vida tinha cheiro de sal e ritmo de maré. Ho...

O que é possível?

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  Para mim, falar de multiculturalismo, economia criativa e sustentabilidade não é um exercício teórico, é uma vivência. Ao longo da minha trajetória como jornalista, gestor e articulador de projetos, aprendi que os territórios falam, as culturas ensinam e as pessoas carregam soluções que muitas vezes não cabem nos modelos tradicionais de desenvolvimento. O multiculturalismo sempre foi um ponto de partida. Escutar diferentes vozes, reconhecer saberes ancestrais, respeitar identidades e compreender os contextos locais me mostrou que não existe inovação sem diversidade. É no encontro entre culturas, olhares e histórias que surgem ideias capazes de transformar realidades. Quando a escuta é verdadeira, a diferença deixa de ser ruído e passa a ser potência. A economia criativa entrou na minha vida como prática concreta nos anos em que trabalhei no Sesc Ceará, depois em Almada, Portugal para chegar em Sabiaguaba. Vi comunidades se fortalecerem quando sua cultura deixou de ser vista apena...

Os cacos que não cabem no feed

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  Vivemos um tempo curioso: nunca foi tão importante parecer inteiro. Inteiro, feliz, produtivo, iluminado por filtros quentes e frases prontas. A vida virou vitrine. E o sofrimento, quando aparece, precisa ser rápido, discreto e esteticamente aceitável. Dor longa não engaja. Silêncio profundo não viraliza. E já dizia o poeta Fernando Pessoa por Álvaro de Campos: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo". O Poema em Linha Reta é uma crítica às relações sociais que Campos parece observar, de fora, e a sua incapacidade de se operar pelas regras de etiqueta e conduta vigentes. o sujeito lírico aponta a falsidade e hipocrisia dessas relações. Nada longe como estamos vivendo. Há pesquisas de psicólogos, neurocientistas, estudiosos do comportamento que já ousam dizer o impensável: as redes sociais funcionam como a nova droga social. Estimulam dopamina, criam dependência, geram abstinência emocional. Não queimam os pulmões como o...

Meu reino por um cavalo (ou uma ilha)

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“Meu reino por um cavalo. ” Ricardo III grita no campo de batalha quando já perdeu tudo: aliados, honra, futuro. Shakespeare não escreve sobre a troca; escreve sobre o desespero. O rei não negocia, implora. O poder, quando escorre pelos dedos, aceita qualquer moeda. Em janeiro de 2026, o grito volta a ecoar, mas invertido. Não vem de um rei acuado, e sim de um governante que se imagina senhor do tabuleiro inteiro. Agora o cavalo não é montaria: é território. É ilha. É gelo, petróleo, minerais raros. É a Groenlândia transformada em peça de xadrez, avaliada em cifras e ameaças tarifárias. Não se pede. Exige-se. Não se perde tudo. Quer-se mais. Donald Trump atua como um personagem que confunde palco com mundo. Veste a coroa antes do figurino, improvisa falas, atropela o texto da História e chama isso de força. O imperialismo, que antes disfarçava seus passos com discursos civilizatórios, hoje marcha com a franqueza de um leiloeiro: quanto custa? Quem vende? Quem resiste paga pedágio. A Di...

Fortaleza não nasceu. Aconteceu

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Sem saber que entrava numa cidade que ainda estava se escrevendo e que, aos poucos, passaria a me escrever também, cheguei em 1994. No primeiro calor, esse abraço sem aviso, me recebeu sem pedir explicações. Eu vinha de fora, com malas, sonhos e uma pressa que não sabia nomear. Vim como quem chega. Fiquei como quem cria raiz. Foi aqui que me tornei quem sou. Casei, tive filhos, construí uma carreira, errei, recomecei. Aqui aprendi que a vida não é linha reta, é maré. E que o tempo, como essa cidade, não se impõe: se negocia. Fortaleza faz aniversário em 13 de abril. Gosto de pensar nessa data não como início, mas como um gesto simbólico, quase um acordo afetivo com o calendário sentimental de nós mesmos. Porque Fortaleza não começou num dia. Fortaleza foi acontecendo. Como gente. Como família. Como nós e em nós. Quando aprendi a caminhar por suas ruas, não percebia que sob o asfalto dormiam trilhas antigas: passos indígenas, tentativas interrompidas, silêncios impostos, resistências fe...

Sobremesa da Vida

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Tudo passa por mim. E passa rápido, como se o tempo tivesse perdido a delicadeza. Minha mente corre sem direção, um tropel de pensamentos que não se aquieta. A ansiedade não bate à porta — entra. Senta. Fica. Quer que tudo aconteça agora, de uma vez, como um giro completo do mundo. Um 360 graus que reorganize o caos. Mas o que sinto é o contrário: prisão. Um quarto sem janelas. Um silêncio que não responde. Sou uma pessoa boa. Digo isso sem vaidade, como quem constata um fato simples. Trabalho, cuido, insisto. Ainda assim, nada garante retorno. Lá fora, o mundo estilhaça: guerras, urgências, gritos. Aqui dentro, o esforço parece não encontrar eco. Abri frentes demais. Plantei projetos como quem acende velas. Coloquei tempo, fé, esperança. Esperei. Nada avançou. Nada vingou no tempo prometido. E isso pesa. Um peso invisível, mas constante, que se chama ansiedade — e às vezes medo, mesmo quando não confesso. Tudo se mistura: frustração com cansaço, fé com dúvida, coragem com esgotamento....

Quando o Humano se torna Inumano

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  Há um momento em que o humano deixa de ser sujeito e passa a ser vitrine. Não acontece de uma vez; é um processo silencioso, confortável, instagramável. Primeiro, aprende-se a sorrir para a câmera. Depois, a viver para ela. Por fim, já não se sabe mais existir sem o reflexo do próprio rosto numa tela. A degradação do humano não vem com algemas nem com decretos. Ela chega em forma de convite: “mostre-se”. O mundo vira cenário, a intimidade vira conteúdo, o pensamento precisa caber em quinze segundos. O que não engaja não existe. O que não aparece morre. E assim seguimos, fabricando versões editadas de nós mesmos, como se a vida precisasse de filtro para ser suportável. O tal do BBB é a síntese brutal desse projeto. Uma casa de vidro onde pessoas são confinadas não para viver, mas para performar. Não se trata de convivência, mas de exposição. Não é experiência humana, é experimento social com plateia. Gente vigiada, editada, torcida, cancelada. Do lado de fora, multidões gritam — n...