Bad Bunny e a América sem fronteira
Houve um instante curioso no espetáculo mais barulhento do planeta em que um porto-riquenho decidiu lembrar ao público algo perigosamente simples: a América não cabe numa bandeira só. Bad Bunny surgiu como quem atravessa fronteiras sem passaporte. Não trouxe mapas, trouxe uma palavra antiga: América. Inteira. Sem hífen, sem muro, sem rodapé diplomático. América como um corpo continental — sul, centro e norte — respirando no mesmo pulmão geológico. E ali, no Super Bowl, esse altar contemporâneo do espetáculo, ele fez algo quase herético: cantou união num lugar acostumado a celebrar disputas. Foi bonito. E, por isso mesmo, irônico. Porque enquanto os refletores desenhavam um continente imaginário no ar, havia um silêncio curioso sobre tudo aquilo que insiste em nos separar: sotaques, moedas, cicatrizes históricas, a eterna mania humana de transformar linhas imaginárias em trincheiras morais. O show dizia: somos um só território. A história, essa senhora sem maquiagem, sussurrava: s...