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O avesso da honra, uma tragédia humana.

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O país acordou atravessado por uma notícia que não cabe inteira em nenhuma manchete. Um homem matou os próprios filhos e depois tirou a própria vida. As primeiras explicações correram com a velocidade que só a dor e o escândalo conhecem: traição, honra ferida, vingança íntima. Em poucas horas, as redes já tinham um tribunal armado, réus definidos, sentenças proferidas. Tudo muito rápido. Rápido demais para algo que exige silêncio. O que mais assusta não é apenas o crime (já terrível por si), mas o quanto ele ativa fantasmas antigos que a gente jura ter superado. A ideia de honra masculina que atravessa séculos legitimando violências, reaparece como um eco incômodo. Mudam os séculos, mudam as leis, mas certas sombras parecem sobreviver no inconsciente coletivo, esperando um gatilho para voltar a respirar. Não escrevo como juiz. Não é meu lugar absolver ou condenar. Mas sou alguém que tenta compreender o cenário humano que se revela quando a tragédia rasga o cotidiano. E há algo aqui que...

Bad Bunny e a América sem fronteira

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  Houve um instante curioso no espetáculo mais barulhento do planeta em que um porto-riquenho decidiu lembrar ao público algo perigosamente simples: a América não cabe numa bandeira só. Bad Bunny surgiu como quem atravessa fronteiras sem passaporte. Não trouxe mapas, trouxe uma palavra antiga: América. Inteira. Sem hífen, sem muro, sem rodapé diplomático. América como um corpo continental — sul, centro e norte — respirando no mesmo pulmão geológico. E ali, no Super Bowl, esse altar contemporâneo do espetáculo, ele fez algo quase herético: cantou união num lugar acostumado a celebrar disputas. Foi bonito. E, por isso mesmo, irônico. Porque enquanto os refletores desenhavam um continente imaginário no ar, havia um silêncio curioso sobre tudo aquilo que insiste em nos separar: sotaques, moedas, cicatrizes históricas, a eterna mania humana de transformar linhas imaginárias em trincheiras morais. O show dizia: somos um só território. A história, essa senhora sem maquiagem, sussurrava: s...

O pão, o vinho e o silêncio que fala

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  Acordei com a notícia atravessando o dia como um ruído difícil de ignorar. O caso do cão Orelha já tinha se espalhado: imprensa nacional, internacional, redes sociais inflamadas, opiniões prontas, indignações em série. Era impossível não sentir algo. Mas, enquanto lia e relia manchetes, me veio uma pergunta mais profunda do que qualquer julgamento: o que estamos fazendo com a nossa capacidade de sentir? Não escrevo e nem falo para condenar ou absolver ninguém. A justiça humana segue seus caminhos e precisa seguir. O que me inquieta não é o veredito, mas o espelho. Toda tragédia pública é, de alguma forma, um convite silencioso para que a gente olhe o cenário maior: o estado da nossa consciência. Pensei então no pão e no vinho. No gesto antigo, simbólico, profundamente humano. O pão que se reparte lembra que a vida é partilha. O vinho que se oferece lembra que a vida é presença, intensidade, sacrifício, transformação. Quando esses símbolos atravessam a história cristã, eles não su...

O que eu venho aprendendo com a vida e posso contar

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Aprendi cedo que os lugares falam. Não em voz alta, mas em camadas: no jeito das pessoas, nos silêncios, nos gestos cotidianos e na forma como o tempo parece obedecer a outras regras. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar cultura, território e vida. Para mim, as artes sempre foram menos um conceito e mais uma experiência atravessada no corpo. No Sesc Ceará, onde trabalhei por mais de 10 anos,  essa percepção ganhou chão. Ali entendi que cultura não é evento isolado, é processo contínuo de encontro. Pessoas diferentes, histórias diversas, linguagens múltiplas convivendo no mesmo espaço me ensinaram que comunicar é, antes de tudo, criar pontes. Aprendi a escutar mais do que a explicar, a observar mais do que intervir. Foi ali que comecei a perceber que a diversidade, quando acolhida, organiza e não desordena. Depois, o caminho me levou a Almada, em Portugal, outro lado do Atlântico. Na vila de pescadores da Costa de Caparica, a vida tinha cheiro de sal e ritmo de maré. Ho...

O que é possível?

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  Para mim, falar de multiculturalismo, economia criativa e sustentabilidade não é um exercício teórico, é uma vivência. Ao longo da minha trajetória como jornalista, gestor e articulador de projetos, aprendi que os territórios falam, as culturas ensinam e as pessoas carregam soluções que muitas vezes não cabem nos modelos tradicionais de desenvolvimento. O multiculturalismo sempre foi um ponto de partida. Escutar diferentes vozes, reconhecer saberes ancestrais, respeitar identidades e compreender os contextos locais me mostrou que não existe inovação sem diversidade. É no encontro entre culturas, olhares e histórias que surgem ideias capazes de transformar realidades. Quando a escuta é verdadeira, a diferença deixa de ser ruído e passa a ser potência. A economia criativa entrou na minha vida como prática concreta nos anos em que trabalhei no Sesc Ceará, depois em Almada, Portugal para chegar em Sabiaguaba. Vi comunidades se fortalecerem quando sua cultura deixou de ser vista apena...

Os cacos que não cabem no feed

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  Vivemos um tempo curioso: nunca foi tão importante parecer inteiro. Inteiro, feliz, produtivo, iluminado por filtros quentes e frases prontas. A vida virou vitrine. E o sofrimento, quando aparece, precisa ser rápido, discreto e esteticamente aceitável. Dor longa não engaja. Silêncio profundo não viraliza. E já dizia o poeta Fernando Pessoa por Álvaro de Campos: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo". O Poema em Linha Reta é uma crítica às relações sociais que Campos parece observar, de fora, e a sua incapacidade de se operar pelas regras de etiqueta e conduta vigentes. o sujeito lírico aponta a falsidade e hipocrisia dessas relações. Nada longe como estamos vivendo. Há pesquisas de psicólogos, neurocientistas, estudiosos do comportamento que já ousam dizer o impensável: as redes sociais funcionam como a nova droga social. Estimulam dopamina, criam dependência, geram abstinência emocional. Não queimam os pulmões como o...

Meu reino por um cavalo (ou uma ilha)

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“Meu reino por um cavalo. ” Ricardo III grita no campo de batalha quando já perdeu tudo: aliados, honra, futuro. Shakespeare não escreve sobre a troca; escreve sobre o desespero. O rei não negocia, implora. O poder, quando escorre pelos dedos, aceita qualquer moeda. Em janeiro de 2026, o grito volta a ecoar, mas invertido. Não vem de um rei acuado, e sim de um governante que se imagina senhor do tabuleiro inteiro. Agora o cavalo não é montaria: é território. É ilha. É gelo, petróleo, minerais raros. É a Groenlândia transformada em peça de xadrez, avaliada em cifras e ameaças tarifárias. Não se pede. Exige-se. Não se perde tudo. Quer-se mais. Donald Trump atua como um personagem que confunde palco com mundo. Veste a coroa antes do figurino, improvisa falas, atropela o texto da História e chama isso de força. O imperialismo, que antes disfarçava seus passos com discursos civilizatórios, hoje marcha com a franqueza de um leiloeiro: quanto custa? Quem vende? Quem resiste paga pedágio. A Di...