O que eu venho aprendendo com a vida e posso contar




Aprendi cedo que os lugares falam. Não em voz alta, mas em camadas: no jeito das pessoas, nos silêncios, nos gestos cotidianos e na forma como o tempo parece obedecer a outras regras. Talvez por isso eu nunca tenha conseguido separar cultura, território e vida. Para mim, as artes sempre foram menos um conceito e mais uma experiência atravessada no corpo.

No Sesc Ceará, onde trabalhei por mais de 10 anos,  essa percepção ganhou chão. Ali entendi que cultura não é evento isolado, é processo contínuo de encontro. Pessoas diferentes, histórias diversas, linguagens múltiplas convivendo no mesmo espaço me ensinaram que comunicar é, antes de tudo, criar pontes. Aprendi a escutar mais do que a explicar, a observar mais do que intervir. Foi ali que comecei a perceber que a diversidade, quando acolhida, organiza e não desordena.

Depois, o caminho me levou a Almada, em Portugal, outro lado do Atlântico. Na vila de pescadores da Costa de Caparica, a vida tinha cheiro de sal e ritmo de maré. Homens e mulheres que medem o tempo pelo vento, pela lua e pela memória. Ali, multiculturalismo era sobrevivência, não discurso. Tradição e reinvenção caminhavam juntas: redes antigas, novas gerações, histórias cruzadas por migrações, perdas e resistências. A economia criativa, hoje tão falada que até ganhou uma secretaria própria no atual Governo Lula, acontecia sem nome, no fazer diário, no saber passado de mão em mão. Foi ali que aprendi que sustentabilidade começa no respeito ao que já existe.

Mais tarde, na Sabiaguaba, a 17 quilômetros de Fortaleza, esse aprendizado se aprofundou. Um território onde natureza, cultura e ancestralidade não se separam. Manguezais, dunas, comunidades tradicionais e um modo de vida que resiste ao avanço acelerado da cidade. Hoje, à frente da gestão do Complexo Ambiental da Sabiaguaba, convivo diariamente com o desafio de equilibrar preservação, desenvolvimento e pertencimento. Não há respostas prontas. Há escuta, negociação, cuidado e a certeza de que qualquer ação precisa honrar o território e quem vive nele.

Foi nesse percurso, entre instituições culturais, vilas de pescadores e áreas ambientais protegidas, que meu propósito como profissional de comunicação se formou. Comunicar, para mim, é traduzir mundos sem apagá-los. É criar narrativas que gerem valor econômico sem destruir vínculos simbólicos. É fortalecer pessoas e comunidades para que sejam protagonistas das próprias histórias.

Meu compromisso é usar a comunicação como ferramenta de cuidado, de desenvolvimento e de futuro. Um futuro onde a diversidade não seja tolerada, mas celebrada; onde a criatividade seja caminho de autonomia; e onde sustentabilidade não seja promessa distante, mas prática cotidiana.

Caio Quinderé, 28 de janeiro de 2026.


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