Meu reino por um cavalo (ou uma ilha)
“Meu reino por um cavalo.” Ricardo III grita no campo de batalha quando já perdeu tudo: aliados, honra, futuro. Shakespeare não escreve sobre a troca; escreve sobre o desespero. O rei não negocia, implora. O poder, quando escorre pelos dedos, aceita qualquer moeda.
Em janeiro de 2026, o grito volta a ecoar, mas invertido. Não vem de um rei acuado, e sim de um governante que se imagina senhor do tabuleiro inteiro. Agora o cavalo não é montaria: é território. É ilha. É gelo, petróleo, minerais raros. É a Groenlândia transformada em peça de xadrez, avaliada em cifras e ameaças tarifárias. Não se pede. Exige-se. Não se perde tudo. Quer-se mais.
Donald Trump atua como um personagem que confunde palco com mundo. Veste a coroa antes do figurino, improvisa falas, atropela o texto da História e chama isso de força. O imperialismo, que antes disfarçava seus passos com discursos civilizatórios, hoje marcha com a franqueza de um leiloeiro: quanto custa? Quem vende? Quem resiste paga pedágio.
A Dinamarca reage como quem lembra ao teatro que existe lei fora do palco. A Groenlândia responde com a dignidade silenciosa dos povos que não se resumem a mapas. As estruturas legais, culturais e humanas, essas personagens secundárias que o poder costuma subestimar, entram em cena e atrasam o espetáculo. É nelas que a peça range e reage.
O mundo, por sua vez, não assiste sentado. A China cresce com paciência milenar, a Rússia observa com olhos de inverno, a Europa calcula danos, e a guerra comercial se espalha como fumaça de cena mal ventilada. O palco treme porque o roteiro é antigo: ouro negro, minerais raros, rotas estratégicas. O elenco muda; a ambição permanece. A crueldade, intervencionista e armamentista, atravessa séculos com a mesma máscara.
Trump não é a contramão da História. É a sua continuidade sem pudor. A diferença é a ausência de subtexto. O que antes se dizia em notas de rodapé agora vira slogan: "Make America Great Again". Grande para quem? Para os que contam ilhas? Para os que colecionam fronteiras como troféus? Enquanto isso, os americanos — empregos, saúde, dignidade — ficam fora do enquadramento, como figurantes cortados na edição final do seriado televisivo.
Há um silêncio incômodo na política interna dos Estados Unidos. Os pares republicanos despertam tarde e desembarcam na Dinamarca; os Democratas falam baixo; a oposição não alcança o microfone do mundo. A cena se resolve por aplausos artificiais e algoritmos. O debate vira ruído. A democracia, pausa técnica.
E então o teatro do grotesco avança, como convém às farsas. O reverso do avesso: Dercy Gonçalves, a caricatura, não a mulher, entregando terras alheias com gargalhada de programa de auditório; Maria Corina oferecendo um Nobel da Paz como se fosse brinde de supermercado. O valor vira preço. A ética, desconto. O poder, espetáculo.
Assistimos perplexos. Sabemos que a próxima cena virá mais alta, mais rápida, mais agressiva. O circo dos horrores não pede licença; vende ingresso. E nós, que ainda insistimos na delicadeza do mundo, tentamos lembrar que existem limites, linhas invisíveis que não se cruzam sem custo humano.
Enquanto isso, o Brasil caminha abrindo mercados com a Europa, negociando sem bravatas, lembrando que diplomacia também é arte. A arte de escutar, de ceder, de não confundir grandeza com volume. Assim caminha a humanidade, canta Lulu Santos com Nelson Motta, entre avanços e tropeços, entre o cinismo e a esperança.
Shakespeare nos ensinou que reis caem quando acreditam que tudo lhes pertence. O cavalo não salva quem perdeu o juízo. A ilha não absolve quem confunde força com direito. No fim, sempre resta a pergunta que atravessa o palco e nos alcança na plateia: quem grita mais alto “meu reino por um cavalo”?
O que implora porque já perdeu. Ou o que exige porque ainda não aprendeu a perder?
Talvez a resposta esteja fora do teatro, no chão frio onde a História cobra o ingresso mais caro: o da responsabilidade.
Caio Quinderé, 18 de janeiro de 2026.

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