Sobremesa da Vida
Tudo passa por mim.
E passa rápido, como se o tempo tivesse perdido a delicadeza.
Minha mente corre sem direção, um tropel de pensamentos que não se aquieta. A ansiedade não bate à porta — entra. Senta. Fica. Quer que tudo aconteça agora, de uma vez, como um giro completo do mundo. Um 360 graus que reorganize o caos. Mas o que sinto é o contrário: prisão. Um quarto sem janelas. Um silêncio que não responde.
Sou uma pessoa boa. Digo isso sem vaidade, como quem constata um fato simples. Trabalho, cuido, insisto. Ainda assim, nada garante retorno. Lá fora, o mundo estilhaça: guerras, urgências, gritos. Aqui dentro, o esforço parece não encontrar eco.
Abri frentes demais. Plantei projetos como quem acende velas. Coloquei tempo, fé, esperança. Esperei. Nada avançou. Nada vingou no tempo prometido. E isso pesa. Um peso invisível, mas constante, que se chama ansiedade — e às vezes medo, mesmo quando não confesso.
Tudo se mistura: frustração com cansaço, fé com dúvida, coragem com esgotamento. Pergunto-me se errei o caminho ou se apenas cheguei antes da hora. O tempo, esse juiz silencioso, não explica suas decisões.
Converso com o divino como quem fala baixo para não quebrar o mistério. Maria Santíssima me escuta. Os deuses me atravessam. A Umbanda me sopra sinais. Todos dizem a mesma coisa: revise. Escreva. Reorganize o mapa interno. Mas quando pego o papel, surgem perguntas — e só perguntas. Nenhuma resposta se oferece inteira.
O que posso esperar deste ano?
Se tudo é frequência, em que tom estou vibrando?
Será que desafinei de mim?
O dinheiro não chega. Não sustenta o mês. Não cobre o básico. E talvez seja aí que tudo começa a doer mais. A matéria pressionando o espírito. A conta que vence antes da esperança. Não é ambição — é fôlego. É querer atravessar os dias sem medo de faltar.
O que faço para mudar o fluxo?
Como reencontro o eixo quando ele se dissolve?
Sinto que já cheguei à sobremesa da vida: o prato principal passou, mas o doce ainda não veio. Um tempo suspenso. Um intervalo sem explicação. Não é o fim, tampouco o começo. É espera.
Talvez escrever seja isso: permanecer à mesa mesmo sem saber o sabor do que virá. Confiar que algo ainda será servido. Que a pausa também é caminho. Que esse silêncio — incômodo, denso, necessário — não é castigo, é travessia.
E sigo. Mesmo cansado. Mesmo em dúvida.
Sigo porque ainda estou aqui.

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