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Mostrando postagens de março, 2026

Certa Pressa

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Tenho a impressão de que as pessoas andam com uma urgência dentro do peito. Não sei exatamente a urgência de quê. Talvez de viver, porém desconfio que seja mais uma urgência de parecer que vivem. Explico: outro dia vi um homem discutindo com um motorista no meio da rua. Nada muito grave: uma buzinada mais longa, um gesto atravessado pela janela, essas pequenas tragédias urbanas que duram menos de dois minutos e deixam um rastro de irritação no ar. Cada um defendia seu território com uma convicção admirável, como se o destino da humanidade dependesse daquela esquina. Cada um andava ocupado demais defendendo alguma coisa invisível. Defendendo a opinião, a razão, a imagem, a ideia de sucesso. Até defendendo aquilo que ainda não somos, mas gostaríamos muito de parecer ser. E nisso ficamos duros demais. A empatia, uma espécie de delicadeza da atenção, vai rareando. Escutar o outro exige uma pausa, e a pausa virou artigo raro.  Estamos sempre em movimento. Mesmo quando estamos sentados. ...

O Império e o Crepúsculo do Mundo

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Há noites em que o mundo parece um mapa aceso. Não um mapa de geografia, desses que aprendemos na escola, mas um mapa de tensões. Linhas invisíveis que atravessam continentes e transformam cidades em manchetes. De um lado, a guerra entre Rússia e Ucrânia já pouco esquecida pela mídia, porém parece arrastar consigo fantasmas antigos da história europeia. Mais ao sul, o eterno atrito entre Irã e o Ocidente. Na América Latina, a pressão constante sobre a Venezuela, país cercado por sanções, disputas políticas e interesses estratégicos. Nos discursos oficiais, fala-se em democracia, segurança, estabilidade, petróleo e recursos naturais. São palavras grandes, usadas como placas de trânsito para orientar a opinião pública, Entretanto, às vezes, a sensação é outra. Parece que estamos assistindo ao cansaço de um império. Durante quase um século, os Estados Unidos foram o grande eixo do mundo. Depois da Segunda Guerra, ergueram uma ordem internacional que orbitava ao redor do dólar, de suas uni...

O Silêncio virou Grito

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Março chega sempre com flores nas vitrines e discursos prontos nos palcos. Falam da delicadeza, da força, da beleza das mulheres — palavras bonitas, alinhadas como buquês. Mas, enquanto os elogios são distribuídos em cartões e redes sociais, uma outra contagem segue correndo silenciosa nos noticiários: a das mulheres que não voltaram para casa. Muitas vezes, (com grande recorrência ultimamente) o Brasil e o mundo amanhecem com a notícia que já não deveria existir. Mais um nome. Mais uma vida interrompida. Mais um caso de feminicídio. Exemplos se multiplicam e repercutiram com assassinatos cometidos por parceiros ou ex-parceiros, como o caso da jovem grega Kyriaki Griva, morta pelo ex-companheiro perto de uma delegacia após pedir ajuda à polícia. E também o ocorrido em Itumbiara (Goiás), de um homem que matou a ex-esposa a tiros dentro de casa no bairro Jardim Europa, e, em seguida, tirou a própria vida.  Só para citar casos recentes que assustam com a frieza da crueldade. Mas o que...