Certa Pressa




Tenho a impressão de que as pessoas andam com uma urgência dentro do peito. Não sei exatamente a urgência de quê. Talvez de viver, porém desconfio que seja mais uma urgência de parecer que vivem.

Explico: outro dia vi um homem discutindo com um motorista no meio da rua. Nada muito grave: uma buzinada mais longa, um gesto atravessado pela janela, essas pequenas tragédias urbanas que duram menos de dois minutos e deixam um rastro de irritação no ar. Cada um defendia seu território com uma convicção admirável, como se o destino da humanidade dependesse daquela esquina. Cada um andava ocupado demais defendendo alguma coisa invisível. Defendendo a opinião, a razão, a imagem, a ideia de sucesso. Até defendendo aquilo que ainda não somos, mas gostaríamos muito de parecer ser. E nisso ficamos duros demais. A empatia, uma espécie de delicadeza da atenção, vai rareando. Escutar o outro exige uma pausa, e a pausa virou artigo raro. 

Estamos sempre em movimento. Mesmo quando estamos sentados. O pensamento corre, o dedo desliza na tela, o olhar pula de notícia em notícia como um passarinho nervoso preso na gaiola. Talvez tenha ficado tão difícil simplesmente estar. Estar num lugar. Estar numa conversa. Estar consigo mesmo.

As pessoas querem muito ter alguma coisa: ter sucesso, ter reconhecimento, ter seguidores, ter razão. Algumas querem até ser alguma coisa muito específica: ser admiradas, ser importantes, ser vistas. Quase ninguém parece interessado em aprender primeiro a existir.

Existe uma diferença curiosa entre essas coisas. Ter é uma ocupação. Ser é uma ambição. Mas existir — existir é uma espécie de presença tranquila, que não precisa provar nada a ninguém. O problema é que a presença não faz barulho. Talvez por isso o mundo esteja ficando tão cheio de vozes e tão vazio de escuta. Cada um fala, explica, opina, corrige, acusa, comenta. O silêncio virou suspeito, como se quem se calasse, estivesse perdendo alguma coisa importante. Porém, acredito ser o contrário. Quem não suporta o próprio silêncio acaba querendo viver a vida dos outros. Daí essa curiosa vontade de ser outro alguém. O outro parece sempre mais feliz, mais interessante, mais realizado. E assim seguimos nessa corrida invisível: tentando alcançar uma versão imaginária de nós mesmos.

Enquanto isso, a vida, discreta e tímida, vai acontecendo no canto da sala. Talvez fosse suficiente sentar um pouco ao lado dela. Sem pressa. Sem comparação. Sem a obrigação de ser extraordinário. Só com a coragem simples de ser quem se é. E, pensando bem, já não é pouca coisa. Pessoa disse por Álvaro de Campos;” Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo”


Caio Quinderé, 21 de março de 2026

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