O Silêncio virou Grito




Março chega sempre com flores nas vitrines e discursos prontos nos palcos. Falam da delicadeza, da força, da beleza das mulheres — palavras bonitas, alinhadas como buquês. Mas, enquanto os elogios são distribuídos em cartões e redes sociais, uma outra contagem segue correndo silenciosa nos noticiários: a das mulheres que não voltaram para casa.

Muitas vezes, (com grande recorrência ultimamente) o Brasil e o mundo amanhecem com a notícia que já não deveria existir. Mais um nome. Mais uma vida interrompida. Mais um caso de feminicídio. Exemplos se multiplicam e repercutiram com assassinatos cometidos por parceiros ou ex-parceiros, como o caso da jovem grega Kyriaki Griva, morta pelo ex-companheiro perto de uma delegacia após pedir ajuda à polícia. E também o ocorrido em Itumbiara (Goiás), de um homem que matou a ex-esposa a tiros dentro de casa no bairro Jardim Europa, e, em seguida, tirou a própria vida.  Só para citar casos recentes que assustam com a frieza da crueldade. Mas o que assusta realmente não é só a violência — é a ignorância que ainda a sustenta. Uma ignorância antiga, herdada de séculos em que se ensinou ao homem que a mulher era extensão de sua vontade, objeto de seu controle, território de sua autoridade.

Durante muito tempo, em muitas culturas espalhadas pelo mundo, a sociedade naturalizou isso. A mulher que não podia votar. A mulher que não podia estudar. A mulher que precisava da autorização do marido para existir no mundo.

Mas a história não é imóvel.

Ao longo do tempo, mulheres começaram a quebrar o silêncio. Primeiro em sussurros, depois em palavras firmes, depois em gritos coletivos que atravessaram ruas, universidades, fábricas, parlamentos e casas. A luta das mulheres nunca foi apenas por espaço. Foi por dignidade. Por voz. Por reconhecimento de que existir não deveria ser um ato de resistência diária.

Hoje vivemos uma transformação social profunda. As mulheres ocupam lugares antes proibidos, lideram movimentos, escrevem suas próprias narrativas, decidem seus caminhos. E é justamente nesse momento de mudança que parte da velha estrutura reage com violência.

O feminicídio não é só um crime. Ele é o grito desesperado de uma cultura que se recusa a aceitar que o mundo mudou. Quando uma mulher é assassinada por ser mulher, não morre apenas uma pessoa. Morre um pouco da nossa humanidade coletiva. Morre a possibilidade de um futuro mais justo e integral.

Entretanto há algo que a história também nos ensina: as mulheres nunca recuaram diante da escuridão. Elas resistiram nas cozinhas silenciosas das avós que sustentaram famílias inteiras sem reconhecimento. Resistiram nas professoras que ensinaram gerações a pensar. Resistiram nas trabalhadoras que transformaram o país com suas mãos. Resistem hoje nas ruas, nas universidades, nos escritórios, nas comunidades, nas redes de apoio que se formam para que nenhuma fique sozinha.

A voz das mulheres não nasceu agora. Ela foi construída ao longo de séculos — muitas vezes à custa de dor, coragem e persistência. Assim, homenagear as mulheres não pode ser somente entregar flores. É preciso ouvir. É preciso transformar. É preciso educar meninos para que nunca confundam amor com posse, cuidado com controle, masculinidade com violência. Porque o mundo que estamos construindo exige algo novo: homens capazes de aprender, de rever privilégios, de caminhar ao lado — e não à frente.

Enquanto houver uma mulher lutando para existir com liberdade, a história ainda estará em movimento. E talvez o verdadeiro sentido desta homenagem seja justamente esse: reconhecer que a voz das mulheres já mudou o mundo — e continuará mudando, até que nenhuma delas precise morrer para provar que tem o direito de viver. “Talvez o homem precise apenas aprender isto: que veio de um mulher”, como disse o poeta e dramaturgo francês Jean Genet.



Caio Quinderé, 08 de março de 2026.


 

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