O Império e o Crepúsculo do Mundo

Há noites em que o mundo parece um mapa aceso. Não um mapa de geografia, desses que aprendemos na escola, mas um mapa de tensões. Linhas invisíveis que atravessam continentes e transformam cidades em manchetes. De um lado, a guerra entre Rússia e Ucrânia já pouco esquecida pela mídia, porém parece arrastar consigo fantasmas antigos da história europeia. Mais ao sul, o eterno atrito entre Irã e o Ocidente. Na América Latina, a pressão constante sobre a Venezuela, país cercado por sanções, disputas políticas e interesses estratégicos.

Nos discursos oficiais, fala-se em democracia, segurança, estabilidade, petróleo e recursos naturais. São palavras grandes, usadas como placas de trânsito para orientar a opinião pública, Entretanto, às vezes, a sensação é outra. Parece que estamos assistindo ao cansaço de um império.

Durante quase um século, os Estados Unidos foram o grande eixo do mundo. Depois da Segunda Guerra, ergueram uma ordem internacional que orbitava ao redor do dólar, de suas universidades, de sua indústria militar, de seus filmes, de sua cultura. Era como se o planeta tivesse um centro. Mas a história é uma criatura inquieta. Não gosta de centros permanentes.

Enquanto isso, o Oriente cresce silenciosamente. A China amplia sua presença tecnológica, econômica e científica. Países vizinhos investem em educação, infraestrutura e inovação. O mundo vai lentamente se reorganizando e se reacomotdando como placas tectônicas que se movem sem pedir licença. E quando as placas se movem, o chão treme. É nesse tremor que surgem as guerras, as sanções, as alianças inesperadas, as pressões geopolíticas. Não são só disputas locais. Muitas vezes são sintomas de algo maior: a ansiedade de quem percebe que o século já não lhe pertence como antes.

Aqui no sul do planeta, porém, existe outra preocupação. Silenciosa, mas enorme como uma floresta. A Amazônia. Ela aparece nos discursos internacionais como patrimônio da humanidade, pulmão do mundo, reserva estratégica de biodiversidade. Porém por trás das palavras elegantes existem interesses menos poéticos: água doce, minerais raros, territórios imensos, energia, poder. Por isso é preciso olhar com atenção quando as grandes potências começam a falar demais sobre a floresta. Porque a história mostra que, muitas vezes, quem diz proteger também deseja possuir.

Nos corredores da política americana, vez ou outra surgem propostas curiosas: classificar organizações criminosas brasileiras como o PCC e o CV como grupos terroristas. À primeira vista, parece apenas uma questão de segurança internacional. Contudo na política global, cada palavra abre portas — e às vezes abre também pretextos.

Enquanto isso, outro fenômeno cresce no planeta como erva daninha entre pedras: o fundamentalismo religioso. Não importa a fé, o templo ou o livro sagrado. Quando a religião deixa de ser ponte e vira arma,  deixa de ser acolhimento e vira hobbies, ela transforma sociedades inteiras em trincheiras morais. E isso, sem dúvida, é uma das forças mais perigosas do nosso tempo. Porque o fanatismo tem uma característica curiosa: ele não precisa de fronteiras. Ele atravessa países, invade parlamentos, contamina discursos e simplifica o mundo em duas cores — salvação ou condenação.

No meio desse cenário, seguimos vivendo nossas vidas pequenas: atravessando ruas, tomando café, lendo notícias no celular enquanto o planeta se reorganiza em silêncio.

Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo seja compreender que estamos dentro de uma transição histórica. Um império envelhece. Outros poderes emergem. As tensões se espalham. A fé vira arma. A floresta vira interesse estratégico. E nós, aqui no sul do mundo, precisamos aprender uma lição antiga da história: quando os gigantes brigam, as terras férteis costumam virar campo de disputa. Daí, mais do que nunca, é preciso vigiar o futuro. Especialmente o que cresce verde, silencioso e imenso no coração da Amazônia.


Caio Quinderé, 11 de março. 

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