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Mostrando postagens de novembro, 2025

Mais uma vez Flamengo

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A manhã em Lima pareceu despertar antes de todo mundo. O sol, ainda tímido, riscava de ouro o céu andino quando o Brasil inteiro começou a pulsar no mesmo compasso vermelho e preto. A cidade peruana, acostumada ao movimento dos turistas e ao silêncio das montanhas, descobriu naquele dia que existe um barulho que não se explica: o barulho do Flamengo disputando uma final de Libertadores. Era a quarta conquista. O tetra. Um feito que só o Flamengo, com sua fé quase religiosa, com sua legião de devotos espalhados pelo mundo, parecia capaz de alcançar. E cada passo dessa caminhada tinha nome, suor e história, especialmente a determinada trajetória de Luiz Felipe, que chegou desacreditado por alguns, escanteado por outros, mas movido por algo que sempre deu sentido ao futebol: a obstinação em permanecer de pé quando o jogo insiste em nos derrubar. Luiz Felipe não era só um jogador; era um capítulo vivo daquelas viradas que só o Flamengo sabe escrever. Carregava nas chuteiras a memória das c...

Passar o Brasil a limpo.

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  Passar o Brasil a limpo Há países que caminham como quem atravessa uma ponte sólida; o Brasil, porém, parece atravessar um mangue. A cada passo, a lama puxa de volta um pouco do que tentamos ser, e o país aprende, às vezes tarde demais — que não há futuro possível sem que se vasculhe o barro, sem que se toque na ferida, sem que se encare o que se preferiria esquecer. Agora, quando generais, ministros e altas autoridades finalmente enfrentam a luz dura da responsabilização, o país parece respirar um ar que há muito não sentia. É um ar pesado, sim, porque mexer no passado nunca é leve, mas necessário. Por mais de um século, acostumamo-nos à ideia de que certos fardados e certos engravatados habitavam uma espécie de cúpula imune às consequências. Eram personagens de uma ópera repetida: os donos do poder, que nos garantiam que tudo era para “salvar a pátria”, enquanto a pátria sangrava. Não faltaram golpes. Golpes oficiais, extraoficiais, planejados, improvisados, de gabinete, de ...

Crônica do mar

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  Hoje voltei ao mar como quem retorna a um velho amigo que nunca se deixa decifrar por completo. Fui cedo, quase quando a cidade ainda bocejava seus primeiros ruídos, e a Praia do Futuro me recebeu em silêncio, deserta, como se tivesse sido varrida pelo próprio tempo. Ali, só eu, o sol ainda tímido e esse corpo imenso de água que me fita com olhos que não sei traduzir. Gosto do sol, dessa luz que me toca com delicadeza e firmeza, como uma bênção antiga. Respeito as águas, o ritmo do vento, esse diálogo profundo entre a terra e o mar, onde um se entrega ao outro sem jamais se possuir. Há algo de ritual nesse encontro, algo que não cabe em palavras, mas que pulsa dentro de mim como uma oração sem voz. Tenho medo, é verdade. A imensidão me lembra o quanto sou pequeno, frágil, passageiro. O mar é vasto demais, profundo demais, misterioso demais. Mas é nesse mesmo temor que nasce minha devoção. Aproximo-me com cuidado, sinto a areia ainda fria sob os pés, a espuma avançando como um ges...

Quase vivo, quase morto.

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  Naquela esquina da cidade, onde a madrugada costuma ser mais personagem que cenário, a calçada parecia ter engolido o silêncio. Não o silêncio puro, de biblioteca; mas aquele silêncio esquisito que vem depois do barulho demais, como um eco cansado de si mesmo. Havia um homem caído no chão. O rosto dele era um mapa de hematomas, sulcos roxos e inchados, como se a madrugada tivesse lhe batido com força e sem explicação. De início, quem passava jurava que ele estava morto. Até parecia: o corpo largado, os braços abertos como quem entrega a vida e diz “tá bom, chega” . A cidade já tinha visto muito e, honestamente, não se espantava. Ao redor formou-se aquele círculo típico: uns curiosos, uns bêbados, dois ou três sobreviventes da noite que ainda discutiam sobre quem pagaria o último gole. E entre eles, dois tipos muito distintos: um rapaz que queria ajudar; os outros, que calculavam quanto vale um relógio barato, um celular quebrado ou qualquer coisa que brilhe o suficiente para just...

O Vento Pensa em Mim

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por Caio Quinderé O vento, esse desassossego com asas invisíveis, passa por mim como quem varre uma rua dentro da alma. Sinto o mundo buliçoso transpirar pelos meus poros, sopro que entra, memória que sai. O vento pensa em mim. Concluo quando tudo silencia e ainda assim algo me move. Não sou eu — é o vento, é sempre o vento, esse pensamento sem corpo atravessa o que resta de mim. Queria ser concreto, sou apenas um eco entre dois vazios, uma dobra de ar tentando fingir que tem forma. Sou o intervalo entre o que passa e o que pensa. Há dias em que o vento é mais verdadeiro que as pessoas. As pessoas falam — o vento sugere, apenas. As pessoas têm planos — o vento tem direção. E eu sigo, feito papel solto na corrente do acaso. Ah, se eu pudesse ser só movimento, sem o cansaço de ser alguém! Ser a ideia do vento antes de tocar o rosto, ser o que sopra, não o que sente o sopro. Mas eis-me aqui: pensando o vento, pensado por ele, o vento usa meu corpo para se lembrar que existe. Tudo que digo...

O Futuro Começa Onde Estamos: Economia Criativa, Sustentabilidade e Desenvolvimento Local

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  Resumo O presente artigo discute o papel da economia criativa como vetor estratégico de desenvolvimento local e sustentabilidade, tomando como referência o território de Aracati (CE) e experiências exitosas em diferentes regiões do Brasil. Argumenta-se que a criatividade, a identidade cultural e o capital simbólico de um povo constituem recursos econômicos capazes de gerar renda, inclusão social e sentido de pertencimento. A partir de exemplos como o Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), o Geopark Araripe (CE), Triunfo (PE) e o Complexo Ambiental e Gastronômico da Sabiaguaba (CE), o texto evidencia que a inovação pode emergir da tradição, e que o futuro dos territórios depende da capacidade de seus habitantes de transformar cultura em potência e colaboração em prosperidade. Palavras-chave: economia criativa; sustentabilidade; desenvolvimento local; cultura; inovação; Aracati. 1. Introdução Há cidades que esperam o futuro chegar — e há cidades que o criam. Aracati p...

Mulheres de Renda

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Reza-se, no silêncio das dunas do Aracati, que o mundo começou num sopro. O mar ainda cochilava dentro das conchas, o sol tateava o sertão com dedos de luz recém-nascida, e foi então que uma mulher se sentou à beira do vento. Era uma mulher de olhos de rio e mãos de luar. Chamavam-na Mãe do Fio. Dizem que ela arrancou um cabelo da própria cabeça e, com ele, teceu o primeiro desenho sobre a areia. O vento viu, encantou-se, quis aprender o gesto. Desde esse dia sopra pelo Aracati ensinando às mulheres o segredo de unir o que o tempo separa. Cada labirinto que nasce vem do sopro dela. Cada ponto que se abre é o mundo se refazendo dentro do pano. Toda mulher que fia é filha dessa Mãe antiga — guardadora de silêncios, rendeira de destinos. Por isso o povo diz que o fio nunca termina, apenas muda de mão. E que o vento, velho contador de histórias, ainda passa nas casas das labirinteiras soprando bênçãos de linha e eternidade. Dona Bia nasceu dessas bênçãos. Não foi parida: foi f...