O Vento Pensa em Mim
por Caio Quinderé
O vento, esse desassossego com asas invisíveis,
passa por mim como quem varre uma rua dentro da alma.
Sinto o mundo buliçoso transpirar pelos meus poros,
sopro que entra, memória que sai.
O vento pensa em mim.
Concluo quando tudo silencia
e ainda assim algo me move.
Não sou eu — é o vento, é sempre o vento,
esse pensamento sem corpo atravessa o que resta de mim.
Queria ser concreto,
sou apenas um eco entre dois vazios,
uma dobra de ar tentando fingir que tem forma.
Sou o intervalo entre o que passa e o que pensa.
Há dias em que o vento é mais verdadeiro que as pessoas.
As pessoas falam — o vento sugere, apenas.
As pessoas têm planos — o vento tem direção.
E eu sigo, feito papel solto na corrente do acaso.
Ah, se eu pudesse ser só movimento,
sem o cansaço de ser alguém!
Ser a ideia do vento antes de tocar o rosto,
ser o que sopra, não o que sente o sopro.
Mas eis-me aqui:
pensando o vento,
pensado por ele,
o vento usa meu corpo para se lembrar que existe.
Tudo que digo é vento,
tudo que não digo também.
Talvez o que chamamos de alma
seja apenas o vento tentando ter pensamento.

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