Mulheres de Renda
Reza-se, no silêncio das dunas do Aracati, que o mundo começou num sopro. O mar ainda cochilava dentro das conchas, o sol tateava o sertão com dedos de luz recém-nascida, e foi então que uma mulher se sentou à beira do vento. Era uma mulher de olhos de rio e mãos de luar. Chamavam-na Mãe do Fio. Dizem que ela arrancou um cabelo da própria cabeça e, com ele, teceu o primeiro desenho sobre a areia. O vento viu, encantou-se, quis aprender o gesto. Desde esse dia sopra pelo Aracati ensinando às mulheres o segredo de unir o que o tempo separa. Cada labirinto que nasce vem do sopro dela. Cada ponto que se abre é o mundo se refazendo dentro do pano. Toda mulher que fia é filha dessa Mãe antiga — guardadora de silêncios, rendeira de destinos. Por isso o povo diz que o fio nunca termina, apenas muda de mão. E que o vento, velho contador de histórias, ainda passa nas casas das labirinteiras soprando bênçãos de linha e eternidade. Dona Bia nasceu dessas bênçãos. Não foi parida: foi fiada. Veio ao mundo com o dedo cismado de agulha, o olhar treinado para ver o miúdo das coisas. Aprendeu o ofício sem ninguém mandar. Vendo. Ouvindo. Calando. A mãe ensinou à filha, a filha virou mestra, e a mestra, com o tempo, virou lenda. Porque o que vem da raiz não se explica — perpetua-se. O que se fia com fé, não se desfaz. Toda manhã, quando o sol ainda se espreguiça nos telhados, Dona Bia se senta no batente. O pano branco descansa no colo, dormindo feito menino. O mundo lá fora corre, mas o tempo dela caminha em ponto miúdo. O pano respira, o fio suspira, e a agulha abre caminhos dentro do silêncio. “Labirinto é alma que se desenha”, diz Dona Bia. E quem escuta jura ver o pano florescer entre seus dedos — flor de vento, flor de lembrança. As meninas da vila se achegam, curiosas. Querem aprender o segredo. Mas Dona Bia ri com os olhos e diz: “Primeiro aprende o ouvido. Depois aprende o tempo. Só então aprende o ponto.” Ensina que o pano tem coração, que o erro é só o fio se distraindo, e que a linha também reza quando a gente costura com o que sente. Nas horas de calor, o quintal de Dona Bia vira festa de rendas. O vento brinca com os retalhos, as galinhas ciscam histórias antigas, e as meninas, com a língua entre os dentes, tentam imitar o milagre do fio que se faz flor. Dona Bia é mestra do visível e do invisível. Diz que o labirinto é como a vida: cheio de voltas, de sustos, de ternuras — mas bonito, ah, bonito mesmo, só quando visto de longe. Cada ponto, mesmo o mais torto, encontra seu destino certo no pano do mundo. Quando o sol se recolhe, ela dobra o pano e guarda a agulha. O vento vem buscá-la, leva no sopro um pouco de saudade. As rendas dormem, mas o sonho continua acordado, fiando o silêncio da noite. Dizem que, quando Dona Bia se for, o céu do Aracati vai amanhecer rendado. As nuvens farão ponto de luz, o vento puxará os fios do tempo, e o mundo inteiro se verá tecido por suas mãos. Porque o que é feito com amor e memória não morre. Apenas muda de tecido, muda de corpo, muda de era. E segue, bordando o destino do que vive. Tece, linha, tece. Tece o tempo, tece o chão. Que o vento seja agulha e o sonho bastidor da criação. Tece, mão de mulher antiga, as voltas do mundo, o nó da saudade. Que cada ponto guarde um nome, e cada nome conte uma verdade. Tece, Dona Bia. Tece o céu com tua calma. Que nunca se acabe o fio que costura o pano da alma.

Comentários
Postar um comentário