Quase vivo, quase morto.
Naquela esquina da cidade, onde a madrugada costuma ser mais personagem que cenário, a calçada parecia ter engolido o silêncio. Não o silêncio puro, de biblioteca; mas aquele silêncio esquisito que vem depois do barulho demais, como um eco cansado de si mesmo.
Havia um homem caído no chão. O rosto dele era um mapa de hematomas, sulcos roxos e inchados, como se a madrugada tivesse lhe batido com força e sem explicação. De início, quem passava jurava que ele estava morto. Até parecia: o corpo largado, os braços abertos como quem entrega a vida e diz “tá bom, chega”. A cidade já tinha visto muito e, honestamente, não se espantava.
Ao redor formou-se aquele círculo típico: uns curiosos, uns bêbados, dois ou três sobreviventes da noite que ainda discutiam sobre quem pagaria o último gole. E entre eles, dois tipos muito distintos: um rapaz que queria ajudar; os outros, que calculavam quanto vale um relógio barato, um celular quebrado ou qualquer coisa que brilhe o suficiente para justificar o furto.
Quando a viatura da policia chegou — velha, cansada, o motor resmungando mais que funcionando — parecia até que o Estado tinha decidido respirar fundo e agir. O policial desceu devagar, mão na cintura, olhar de quem já viu desgraça demais para se apressar.
Aproximou-se do corpo. Curvou-se. Observou a barriga que subia e descia, lenta, irregular.
— Morto não tá; murmurou, quase decepcionado.
O rapaz que queria ajudar deu um passo, aliviado: — Então vamos virar ele, chamar o SAMU, fazer alguma coisa…
Mas o policial levantou a mão numa negativa preguiçosa, como quem manda calar um cachorro que late no portão.
— Tá é bêbado. Muito.
E afastou o rapaz com um olhar seco.
Perto do corpo havia uma garrafa de cerveja, quase vazia. O policial a pegou, não com cuidado, mas com aquele tédio agressivo de fim de plantão, e sem nenhum gesto de humanidade, despejou o resto no rosto machucado do homem. A cerveja escorreu pelos cortes, queimando como uma ironia líquida.
— Acorda aí, campeão; disse, virando as costas, já indo embora, como se resolvesse qualquer problema derramando álcool num rosto ferido.
O rapaz que queria ajudar ficou paralisado por um segundo, incrédulo. Já os outros, os que preferiam roubar, viram a cena como autorização tácita. Aproximaram-se um pouco mais. A cidade, afinal, segue suas regras próprias quando ninguém está olhando; e ali ninguém estava.
O policial entrou na viatura, bateu a porta, puxou o rádio para informar que “era só um bebum”. E foi embora. Deixou o homem ali: quase vivo, quase morto. Entregue aos ladrões de ocasião, aos bêbados solidários ou não, à madrugada carioca que abraça e abandona com a mesma força.
No fim, ninguém sabe se o homem acordou ou se virou a estátua daquela noite. Mas a cena ficou: um retrato desconfortável de um país que ainda tropeça na própria sombra. Uma sombra que, às vezes, tem farda; outras vezes, tem fome; e quase sempre tem pressa de virar o rosto para o que não quer ver.
Caio Quinderé, 23 de novembro de 2025.

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