Passar o Brasil a limpo.

 Passar o Brasil a limpo




Há países que caminham como quem atravessa uma ponte sólida; o Brasil, porém, parece atravessar um mangue. A cada passo, a lama puxa de volta um pouco do que tentamos ser, e o país aprende, às vezes tarde demais — que não há futuro possível sem que se vasculhe o barro, sem que se toque na ferida, sem que se encare o que se preferiria esquecer.

Agora, quando generais, ministros e altas autoridades finalmente enfrentam a luz dura da responsabilização, o país parece respirar um ar que há muito não sentia. É um ar pesado, sim, porque mexer no passado nunca é leve, mas necessário. Por mais de um século, acostumamo-nos à ideia de que certos fardados e certos engravatados habitavam uma espécie de cúpula imune às consequências. Eram personagens de uma ópera repetida: os donos do poder, que nos garantiam que tudo era para “salvar a pátria”, enquanto a pátria sangrava.

Não faltaram golpes. Golpes oficiais, extraoficiais, planejados, improvisados, de gabinete, de madrugada, de quartel, de sala fechada, de mãos limpas e consciências sujas. A própria República nasceu assim: um golpe militar que derrubou o Império e inaugurou um país que já começava tropeçando em si mesmo. Mudou-se o regime, mas não se mudou o vício: a tutela do forte sobre o frágil, do comando sobre o voto, da farda sobre o cidadão.

Por décadas, repetimos a liturgia da anistia: “esqueçamos para seguir em frente”. Mas esquecer nunca nos fez avançar; apenas adiou o acerto de contas. Cada silêncio plantado lá atrás germinou desvios, autoritarismos, abusos, perversões públicas. O velho pacto de impunidade, transmitido de geração a geração, foi a herança mais duradoura da política brasileira.

Por isso o que acontece agora: este país que finalmente aponta o dedo, investiga, julga e condena, não é revanche; é higiene. É varrer o quarto que ninguém queria limpar. É abrir as janelas para o sol entrar onde só a sombra mandava.

Não se trata de vingança, mas de maturidade. De entender que viver em sociedade exige consequência. Que quem ocupa o topo não está acima da lei. Que democracia não é palco para golpes sucessivos, nem laboratório de anistias automáticas.

O Brasil não precisa de mais um golpe, precisa parar de apanhá-los. E não precisa de nova anistia. Precisa, ao contrário, da coragem de dizer basta. Basta à naturalização do abuso, basta à narrativa salvacionista que sempre serviu de desculpa, basta ao círculo vicioso que nos prende desde o 15 de novembro de 1889.

Passar o Brasil a limpo não é tarefa de um governo, de um tribunal ou de uma geração. É uma obra contínua. Talvez interminável. Mas cada passo firme, cada responsabilização, cada nome que vai para os autos, cada gesto que diz “não mais” — nos tira um pouco do mangue e nos aproxima da tal ponte.

A ponte que liga quem fomos a quem, enfim, podemos ser. Um Brasil melhor.

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