Mais uma vez Flamengo
A manhã em Lima pareceu despertar antes de todo mundo. O sol, ainda tímido, riscava de ouro o céu andino quando o Brasil inteiro começou a pulsar no mesmo compasso vermelho e preto. A cidade peruana, acostumada ao movimento dos turistas e ao silêncio das montanhas, descobriu naquele dia que existe um barulho que não se explica: o barulho do Flamengo disputando uma final de Libertadores.
Era a quarta conquista. O tetra. Um feito que só o Flamengo, com sua fé quase religiosa, com sua legião de devotos espalhados pelo mundo, parecia capaz de alcançar. E cada passo dessa caminhada tinha nome, suor e história, especialmente a determinada trajetória de Luiz Felipe, que chegou desacreditado por alguns, escanteado por outros, mas movido por algo que sempre deu sentido ao futebol: a obstinação em permanecer de pé quando o jogo insiste em nos derrubar.
Luiz Felipe não era só um jogador; era um capítulo vivo daquelas viradas que só o Flamengo sabe escrever. Carregava nas chuteiras a memória das críticas, nas canelas a marca dos gramados difíceis, e no coração a crença de quem sabe que, na vida, não é o passado que decide, é o próximo passe.
E o próximo passe aconteceu num daqueles instantes em que o tempo parece apertar o freio. Danilo, o improvável herói daquela tarde, encontrou a bola como quem reencontra um velho amigo. Em um toque quase despretensioso, mas guiado por toda a fome de vitória que formou o clube, ele costurou o lance que explodiria o estádio. A cabeçada saiu certeira, daqueles que não aceitam dúvida, daqueles que fazem o goleiro virar espectador da própria derrota. A rede balançou. O Peru tremeu. O Brasil incendiou.
E naquele segundo, que não cabia em relógio algum, cada torcedor rubro-negro viveu a mesma cena: o grito preso na garganta, o coração correndo antes do corpo, a lembrança de todos os jogos sofridos, das derrotas que ensinaram humildade, das vitórias que ensinaram esperança. Há quem diga que torcer é irracional. Talvez seja. Talvez por isso seja tão humano.
Lima virou Rio, virou Maracanã, virou calçada de bairro onde vizinhos se abraçam sem lembrar o nome um do outro. O Flamengo era campeão outra vez. Um feito que ampliava sua história, mas também devolvia ao futebol algo que ele às vezes esquece: a capacidade de unir, de emocionar, de fazer a gente acreditar de novo
O tetra não era só um número; era um sentimento. Era Luiz Felipe se reencontrando com seu próprio destino. Era Danilo gravando seu nome nas memórias do clube. Era o torcedor, esse personagem fundamental, percebendo que torcer é muito mais que acompanhar um placar, é fazer parte de uma narrativa que às vezes parece escrita pelo próprio acaso.
E naquela noite de Lima, enquanto os fogos riscaram o céu e a camisa rubro-negra abraçou o vento andino, o Flamengo provou mais uma vez que há vitórias que não pertencem só ao time. Pertencem a todos que, mesmo longe, mesmo sem ver, mesmo sem motivo racional algum, sentem que dentro do peito mora uma arquibancada inteira. Uma nação rubro-negra inteira gritando:”eu teria um desgosto profundo se faltasse o Flamengo no mundo”

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