Crônica do mar

 







Hoje voltei ao mar como quem retorna a um velho amigo que nunca se deixa decifrar por completo. Fui cedo, quase quando a cidade ainda bocejava seus primeiros ruídos, e a Praia do Futuro me recebeu em silêncio, deserta, como se tivesse sido varrida pelo próprio tempo. Ali, só eu, o sol ainda tímido e esse corpo imenso de água que me fita com olhos que não sei traduzir.

Gosto do sol, dessa luz que me toca com delicadeza e firmeza, como uma bênção antiga. Respeito as águas, o ritmo do vento, esse diálogo profundo entre a terra e o mar, onde um se entrega ao outro sem jamais se possuir. Há algo de ritual nesse encontro, algo que não cabe em palavras, mas que pulsa dentro de mim como uma oração sem voz.

Tenho medo, é verdade. A imensidão me lembra o quanto sou pequeno, frágil, passageiro. O mar é vasto demais, profundo demais, misterioso demais. Mas é nesse mesmo temor que nasce minha devoção. Aproximo-me com cuidado, sinto a areia ainda fria sob os pés, a espuma avançando como um gesto de carinho, e deixo que a água molhe minhas pernas, meus pensamentos, minhas inquietações.

É uma relação poética, quase amorosa. O contato físico com a natureza me atravessa e me refaz. Há uma espiritualidade que não vem de templos, mas de ondas, de sal, de vento que penteia a manhã. O mar não fala, mas ensina. Não julga, mas acolhe. Não promete, mas oferece presença.

E ali, diante dele, compreendo que minha vida também é movimento: vai e vem, maré cheia, maré vazia, silêncio e tempestade. Convivo com essa força dentro de mim, essa saudade inexplicável do que nunca vivi, essa paz que só encontro quando olho para o horizonte e deixo o coração flutuar.

O mar me entende. Ou talvez eu apenas aprenda, pouco a pouco, a me entender diante dele.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Quando o Humano se torna Inumano

A Arte de Ficar

O Grande Samba dos Bastidores