Fortaleza não nasceu. Aconteceu



Sem saber que entrava numa cidade que ainda estava se escrevendo e que, aos poucos, passaria a me escrever também, cheguei em 1994. No primeiro calor, esse abraço sem aviso, me recebeu sem pedir explicações. Eu vinha de fora, com malas, sonhos e uma pressa que não sabia nomear. Vim como quem chega. Fiquei como quem cria raiz.

Foi aqui que me tornei quem sou. Casei, tive filhos, construí uma carreira, errei, recomecei. Aqui aprendi que a vida não é linha reta, é maré. E que o tempo, como essa cidade, não se impõe: se negocia.

Fortaleza faz aniversário em 13 de abril. Gosto de pensar nessa data não como início, mas como um gesto simbólico, quase um acordo afetivo com o calendário sentimental de nós mesmos. Porque Fortaleza não começou num dia. Fortaleza foi acontecendo. Como gente. Como família. Como nós e em nós.

Quando aprendi a caminhar por suas ruas, não percebia que sob o asfalto dormiam trilhas antigas: passos indígenas, tentativas interrompidas, silêncios impostos, resistências ferozes. O Ceará, esse Siará Grande que Portugal olhou de lado no século XVI, parecia condenado à margem da história: não havia ouro fácil, o mar não ajudava, o sertão resistia, os povos originários não se rendiam. Mas talvez tenha sido exatamente aí, na dificuldade, que Fortaleza começou a se formar: no gesto de não desistir.

Antes de ser cidade, foi litoral inquieto. Foi promessa quebrada. Foi forte improvisado. Pero Coelho tentou. Padres tentaram. Martim Soares Moreno insistiu. Holandeses chegaram, tomaram, perderam, voltaram. O rio Ceará assistiu à construção e à destruição de fortalezas como quem observa crianças desenhando abrigos na areia, sabendo que a maré sempre volta. Até que, perto do riacho Pajeú, Matias Beck ergueu o Schoonenborch, depois rebatizado de Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Um nome longo, solene, quase uma oração para uma terra que exigia fé cotidiana.

Foi ali, em torno desse forte que hoje abriga a 10ª Região Militar, que a cidade começou a se juntar. Não por decreto, mas por necessidade. Gente chamando gente. Trabalho chamando trabalho. Vida insistindo em ficar. Em 1726, o povoado virou vila. E alguém decidiu marcar o tempo: 13 de abril. Como se fosse possível cercar a história com uma placa comemorativa.

Hoje, os historiadores dizem (e eu concordo) que a ideia de fundação é mais mito do que verdade. Cidades não nascem: amadurecem. São feitas de camadas sobrepostas, de erros, de apagamentos, de gestos anônimos. Fortaleza não foi obra de um herói isolado, mas de gerações inteiras que amaram esta terra mesmo quando ela parecia dura demais.

Assim fui aprendendo Fortaleza, como se aprende um amor: com convivência e resignação. No vento da Beira-Mar, nos silêncios do Centro ao fim da tarde, na poesia involuntária da Iracema olhando o horizonte como quem espera, não mais as naus portuguesas, mas o futuro. Fortaleza me ensinou que ser forte não é ser duro. É continuar. Mesmo sob o sol impiedoso. Mesmo depois das invasões e abismos. Mesmo quando a vida insiste em testar.

Fortaleza completa 300 anos. Três séculos de complexidade. De desigualdade e beleza. De dor e criação. Uma cidade que nunca foi simples, mas sempre foi viva. E eu, que cheguei de fora, me reconheço parte dessa história longa, imperfeita e profundamente humana.

Uma cidade que não é apenas a capital dos cearenses. É um estado de espírito. É a cidade onde construí uma vida. Uma cidade que não se funda: se refaz. Todos os dias. Como quem resiste. Como quem ama.


Caio Quinderé, 17 de janeiro de 2026.

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