Os cacos que não cabem no feed

 



Vivemos um tempo curioso: nunca foi tão importante parecer inteiro.

Inteiro, feliz, produtivo, iluminado por filtros quentes e frases prontas. A vida virou vitrine. E o sofrimento, quando aparece, precisa ser rápido, discreto e esteticamente aceitável. Dor longa não engaja. Silêncio profundo não viraliza. E já dizia o poeta Fernando Pessoa por Álvaro de Campos: "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo".

O Poema em Linha Reta é uma crítica às relações sociais que Campos parece observar, de fora, e a sua incapacidade de se operar pelas regras de etiqueta e conduta vigentes. o sujeito lírico aponta a falsidade e hipocrisia dessas relações. Nada longe como estamos vivendo.

Há pesquisas de psicólogos, neurocientistas, estudiosos do comportamento que já ousam dizer o impensável: as redes sociais funcionam como a nova droga social. Estimulam dopamina, criam dependência, geram abstinência emocional. Não queimam os pulmões como o cigarro, mas corroem algo igualmente vital: a capacidade de estar consigo mesmo sem plateia.

Nesse cenário, ser humano virou quase um erro de marketing. Chorar não é "instagramável". Envelhecer não é tendência. Falhar não combina com o layout.

E, no entanto, a vida insiste.

Ela cai da estante. Se parte no chão da sala. Estilhaça-se em lutos, términos, frustrações, crises de sentido. O manual contemporâneo manda esconder os cacos. Aplicar filtros. Colar com pressa. Voltar ao feed como se nada tivesse acontecido. “Gratidão”, escreve-se, enquanto o coração ainda sangra.

Mas existe um outro caminho. Um mais lento. Mais honesto. Mais perigoso também.

É o caminho de quem olha para os próprios estilhaços e decide não varrê-los para debaixo do tapete. De quem entende que a beleza não está na ausência de rachaduras, mas no modo como elas são atravessadas.

A arte sempre soube disso.

A poesia, sobretudo, nunca nasceu da superfície. Ela vem da fenda. Do ponto exato onde algo quebrou e deixou ver o que estava escondido por dentro. O poeta, esse ser estranho, não tem pressa de parecer forte. Ele prefere ser verdadeiro.

Enquanto o mundo pede versões editadas, o escritor oferece cicatrizes narradas.

Escrever, nesses tempos de vitrine, é quase um ato de desobediência civil. É dizer: “eu não sou um produto”. É admitir que a vida não cabe num story de quinze segundos. Que a dor não precisa ser negada, mas atravessada com linguagem, com cuidado, com ouro.

Talvez seja isso que o Kintsugi, essa arte japonesa,  ainda nos ensine, séculos depois: não há reconstrução sem memória da queda. Não há beleza sem história. Não há profundidade onde tudo é liso demais.

Olhar a vida por outro prisma é aceitar que somos feitos de falhas, mas também de sentido. Que não precisamos esconder nossas rachaduras, podemos iluminá-las. E que, no meio desse mundo que pede perfeição plastificada, continuar humano é o gesto mais revolucionário que existe.

No fim, a poesia não conserta a vida. Ela a revela. E isso, às vezes, é mais do que suficiente. 

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