America em estado de alerta. Venezuela atacada.

 




O ano mal abriu os olhos e já fomos sacudidos por um pesadelo que parece escrito por um roteirista bêbado de poder. A notícia — ou o rumor, ou o delírio que virou manchete — caiu como bomba: tropas dos Estados Unidos em solo venezuelano, Maduro e a esposa na mira, a América do Sul transformada, mais uma vez, em tabuleiro de guerra. Surreal é pouco. É grotesco. É trágico.

Há algo de profundamente simbólico em começar o ano assim: com botas estrangeiras pisando um continente que nunca deixou de ser quintal de impérios. A sensação é de déjà-vu histórico, como se a Doutrina Monroe tivesse acordado do túmulo vestindo terno moderno, drones e discursos sobre “liberdade”. O velho discurso civilizatório reaparece com nova maquiagem, mas o cheiro é o mesmo: petróleo, minérios, reservas estratégicas. Riqueza que não dorme em paz quando não pertence aos donos do mundo.

Trump — sempre ele, esse personagem que mistura reality show com geopolítica — reaparece como caricatura perigosa do imperialismo clássico. Age como quem confunde mapa com contrato imobiliário: invadir, tomar posse, negociar depois. Não se trata de democracia, nunca foi. Trata-se de controle, de influência, de garantir que as veias abertas da América Latina continuem sangrando para o Norte.

Uma guerra na América do Sul não é apenas um conflito armado. É um rasgo psicológico. É o retorno do medo que pensávamos enterrado com as ditaduras do século passado. É o barulho das hélices sobre florestas, cidades, fronteiras frágeis. É o povo venezuelano, já exausto, transformado novamente em refém — não apenas de seu governo, mas do apetite internacional.

E o Brasil? O Brasil observa, em estado de alerta, como quem está na sala ao lado enquanto a casa do vizinho pega fogo. Apura, calcula, mede palavras. O silêncio diplomático pesa tanto quanto uma declaração precipitada. Estamos diante de um teste histórico: ou assumimos maturidade política e soberania regional, ou aceitaremos, mais uma vez, o papel de figurantes em decisões tomadas longe daqui.

O mais cruel é perceber como a guerra virou espetáculo rápido. Uma notificação no celular, um debate raso, um meme maldoso. Mas guerra não é trending topic. Guerra é corpo, é fome, é fronteira fechada, é criança aprendendo cedo demais o som dos tiros.

Começamos o ano com essa sombra atravessando o continente. Não é só a Venezuela que está em risco. É a ideia de América Latina como território de autodeterminação. É o direito — sempre adiado — de resolvermos nossas tragédias sem a mão armada de impérios interessados.

Talvez esta crônica não traga respostas. Mas deixa um alerta: quando o primeiro tiro é dado, a verdade já foi ferida há muito tempo. E a paz, essa velha senhora cansada, continua esperando que alguém a leve a sério.

Caio Quinderé

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Arte de Ficar

Quando o Humano se torna Inumano

O Grande Samba dos Bastidores