Bad Bunny e a América sem fronteira
Houve um instante curioso no espetáculo mais barulhento do planeta em que um porto-riquenho decidiu lembrar ao público algo perigosamente simples: a América não cabe numa bandeira só.
Bad Bunny surgiu como quem atravessa fronteiras sem passaporte. Não trouxe mapas, trouxe uma palavra antiga: América. Inteira. Sem hífen, sem muro, sem rodapé diplomático. América como um corpo continental — sul, centro e norte — respirando no mesmo pulmão geológico. E ali, no Super Bowl, esse altar contemporâneo do espetáculo, ele fez algo quase herético: cantou união num lugar acostumado a celebrar disputas.
Foi bonito. E, por isso mesmo, irônico.
Porque enquanto os refletores desenhavam um continente imaginário no ar, havia um silêncio curioso sobre tudo aquilo que insiste em nos separar: sotaques, moedas, cicatrizes históricas, a eterna mania humana de transformar linhas imaginárias em trincheiras morais. O show dizia: somos um só território. A história, essa senhora sem maquiagem, sussurrava: sim, mas vocês adoram esquecer.
O gesto mais provocativo, porém, não estava na música, mas na língua. O show cantado em espanhol, mas palco ecoava sons que atravessavam inglês, espanhol, francês, português. Uma babel subliminar, domesticada pelo entretenimento, e, ainda assim, havia ali um parentesco invisível. Todas essas vozes carregam um ancestral comum: o latim. Esse fantasma romano que segue morando na boca de quem pensa estar falando línguas diferentes, mas na verdade vindo de um só origem linguística e territorial.
É curioso perceber que discutimos identidade com a mesma paixão com que negamos parentesco. Como se o idioma fosse uma muralha, quando na verdade é uma árvore genealógica cheia de ramos entrelaçados. Roma não sabia, mas nos deixou uma herança mais teimosa que impérios: a capacidade de nos entendermos. Mesmo quando fingimos não querer.
E então a crônica se revela: o espetáculo mais comercial do mundo virou, por alguns minutos, uma aula involuntária de geografia afetiva. Não aquela dos mapas escolares, mas a dos pertencimentos incômodos. Porque aceitar que somos parte de um continente compartilhado é aceitar também que nossas diferenças não nos tornam estrangeiros. Apenas variações de uma mesma história migrante.
Sim, todos somos imigrantes. Alguns vieram de navio, outros de séculos. Carregamos nas palavras vestígios de viagens antigas, conquistas violentas, trocas culturais e sobrevivências poéticas. A América, essa inteira, não é um lugar puro. É um encontro permanente, às vezes harmonioso, às vezes ruidoso, sempre inevitável.
Talvez por isso a performance de Bad Bunny tenha soado quase subversiva. Num mundo que transforma identidade em trincheira, alguém ousou lembrar que pertencimento pode ser ponte. E fez isso no coração de um espetáculo que vive de rivalidade coreografada.
O paradoxo é delicioso: a indústria do entretenimento, sem querer, hospedou um pequeno manifesto continental. Enquanto milhões assistiam esperando fogos, receberam, disfarçada de pop, uma reflexão antiga: somos múltiplos, mas não somos isolados.
E ali, entre luzes, cifras e coreografias milimetricamente ensaiadas, um porto-riquenho lembrou ao planeta algo que a história vive tentando ensinar: a América não é um pedaço, é um diálogo. E toda língua que a atravessa, no fundo, carrega a mesma memória de movimento.
No fim, talvez essa seja a ironia mais elegante do espetáculo: enquanto discutimos quem pertence a quê, a própria cultura insiste em nos misturar. E a América segue existindo, indiferente às nossas divisões, rindo baixinho da nossa mania de esquecer que sempre fomos, antes de tudo, viajantes compartilhando a mesma casa continental.

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