Versos e Contraversos, Ou seria melhor, controversos.



Vivemos um tempo de espantos. Há dias em que o Brasil parece caminhar de lado, tropeçando nos próprios passos, como se fosse guiado por um maestro indeciso, batuta tremendo na mão. E eu, que escrevo para entender o mundo — ou ao menos para não me perder nele — observo a cena política como quem assiste a um teatro improvisado: cada ator declama sua fala, mas as palavras já não se encaixam no enredo.

No meio desse país atravessado por tensões, surge o episódio que sacudiu Brasília: a decisão do ministro Alexandre de Moraes, interpretada e repercutida em todos os cantos. De um lado, a Câmara votando. Do outro, o ministro anulando a votação e mantendo a cassação de Carla Zambelli. E, no meio desse labirinto jurídico, uma multidão tentando entender quem tem razão — ou se essa palavra, razão, ainda tem alguma serventia na praça pública.

O que me chama a atenção não é apenas a decisão em si, mas o eco que ela provoca: juristas comentam, articulistas explicam, emissoras repetem, redes sociais distorcem. Cada grupo lê o país com suas próprias lentes, e a mesma cena ganha luzes completamente diferentes, como se estivéssemos diante de um caleidoscópio jurídico e moral.

Enquanto isso, a política segue se transformando num palco de contradições. Há uma ala conservadora que insiste em ver no país um espelho de seus medos mais profundos: teme o avanço, teme o debate, teme o que chama de “novidade”, mas que para muitos não passa de justiça básica, diversidade humana e direitos civis. É um grupo que se ancora no passado como quem se agarra a uma tábua em mar revolto — não para sobreviver, mas para impedir que outros nadem.

E assim seguimos: uns avançam, outros recuam, outros empacam. O país tenta andar pra frente, mesmo com forças puxando-o para trás como âncoras invisíveis. E nós, espectadores e participantes desse teatro dissonante, vivemos o desafio de interpretar o texto enquanto os atores ainda o reescrevem no palco.

Entre versos e contraversos, o Brasil se traduz num poema torto: tem rima rica e estrofe perdida, tem metáfora bonita e manchete que pesa. Um país de contrastes, onde cada decisão vira trama, cada voto vira batalha, cada palavra vira munição.

Escrevo esta crônica para registrar esse tempo esquisito, quase febril. Um tempo em que o país parece conversar consigo mesmo — e não se reconhecer no espelho.

Mas ainda acredito que, apesar das dissonâncias, há sempre a possibilidade de reencontrar uma melodia. Mesmo que seja preciso, antes, atravessar o silêncio. Oh, meu Brasil, eu te amo. Sempre.


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