Brigitte Bardot, ou o corpo que virou memória
Brigitte Bardot, ou o corpo que virou memória
Não a vi nascer no cinema. Quando cheguei a ela, Brigitte Bardot já era um mito, uma lembrança luminosa projetada em películas antigas, dessas que carregam poeira, desejo e silêncio. Não a conheci no calor do escândalo, nem no frenesi da juventude que abalou a França dos anos 1950. Eu a encontrei depois — maduro o suficiente para compreender que certos corpos não envelhecem: apenas se transformam em ideia.
Brigitte não foi apenas atriz. Foi presença. Um estado de espírito. Um sopro de liberdade que atravessou a tela quando o mundo ainda engatinhava para admitir o desejo feminino como potência e não como culpa. Em E Deus Criou a Mulher, ela não interpretava um papel — ela inaugurava um gesto. Um modo de estar no mundo com o corpo inteiro, sem pedir licença, sem pedir desculpas. Era carne e luz. Era instinto e invenção.
Quando a vi pela primeira vez, já não era a jovem que incendiou Cannes. Era imagem antiga, restaurada, quase etérea. E talvez por isso mesmo mais forte. Havia nela uma sensualidade que não pedia aplauso; havia silêncio, um cansaço bonito, uma melancolia que o tempo deposita sobre os mitos verdadeiros. Brigitte me chegou como chegam os grandes símbolos: tarde, mas definitiva.
Depois, ela escolheu o exílio. Abandonou as câmeras, os holofotes, a voracidade do olhar alheio. Retirou-se para uma solidão povoada de animais, como se tivesse decidido amar o mundo por outro ângulo, mais silencioso e mais justo. Sua militância não foi de discursos, mas de recusa. Recusou continuar sendo objeto para tornar-se consciência. E isso, para mim, foi seu gesto mais radical.
Hoje, penso nela como quem pensa numa fotografia antiga guardada entre livros: não envelhece, não grita, não implora lembrança. Apenas existe. Brigitte Bardot não morreu — ela se retirou do tempo. Vive nesse território raro onde moram as imagens que nos formaram sem pedir permissão.
E talvez seja isso que reste do verdadeiro cinema: uma presença que continua nos olhando, mesmo quando fechamos os olhos.
Caio Quinderé, 28 de dezembro de 2025

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