A Palavra Antes da Palavra
Há dias em que sinto que a escrita é um ofício antigo, desses que carregam o pó das estradas e o silêncio das madrugadas. Sou servidor da palavra — não no sentido solene dos templos, mas como quem varre um pátio ao amanhecer, atento ao que o vento deixou para trás. Porque antes da palavra, sei, existe o pensamento. E antes do pensamento, talvez exista apenas o susto de existir.
Descartes dizia que pensamos, logo somos. Mas às vezes, olhando o mundo que se desdobra diante de nós, me pergunto: o que somos quando os pensamentos se embaralham? Quando a lógica se perde em corredores onde a luz não alcança? Quando o verbo — esse pequeno espelho da alma — se fragmenta como vidro quebrado?
Escrevo, e ao escrever procuro o fio que costura o humano. Tento entender esse perfil psicológico que muda de forma como nuvem. A palavra nasce, mas nasce inquieta. Ela tenta explicar uma humanidade que fala alto demais e escuta de menos. Uma humanidade que pede pressa enquanto o pensamento, velho almirante, ainda tenta ajustar as velas.
Os valores… ah, esses parecem caminhar de marcha à ré. Tudo às avessas, tudo confuso, como se o mundo tivesse desaprendido a soletrar o essencial. Justiça virou eco. Democracia, neblina. Liberdade, um pássaro que muitos dizem conhecer, mas poucos viram voar de verdade. Palavras que deveriam iluminar agora apenas tremulam, frágeis, sob ventos que não cessam.
E aqui volto a Descartes — não ao filósofo de mármore, mas ao homem que, diante da dúvida, encontrou uma chama. “Penso, logo existo” não é triunfo; é confissão. É admitir que o pensamento é a corda onde equilibramos nossa própria vertigem. Ao escrever, caminho por essa corda. Tento me firmar nela, mesmo quando o mundo abaixo sacode e troveja.
Escrever é também duvidar. É tentar entender o que resta quando tudo parece se desfazer. É recolher do caos um vocábulo ainda quente e soprar sobre ele até que volte a ter sentido. E, quem sabe, devolvê-lo ao mundo não como resposta, mas como convite.
Porque talvez a palavra não salve — mas ilumina. Talvez não resolva — mas recorda. Talvez não cure — mas sustenta.
Eu sigo, servidor da palavra, varrendo minhas manhãs. E enquanto houver um pensamento disposto a nascer, enquanto houver uma dúvida que insista em continuar perguntando, sigo acreditando que ainda podemos, juntos, reescrever um pouco da clareza perdida.

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