Com os dois pés no tempo
Mais um ano vai se despedindo pela porta dos fundos, quase sem fazer barulho, como quem não quer atrapalhar a festa que já se arma do lado de lá do calendário. E que festa, que festa nos espera! Mas, eu, confesso, gosto desses instantes de passagem. Eles têm algo de esquina: a gente para, olha para os dois lados do tempo e decide atravessar. Sim, é inevitável prosseguir.Faz parte ao compromisso firmado com o tempo.
Todo fim de ano eu penso nisso: entrar com o pé direito. Mas qual pé é o direito da vida? O que pisa com mais coragem ou o que tropeça menos? Às vezes acho que o importante não é qual pé vai primeiro, mas a decisão de ir. De colocar o pé na estrada, sentir o chão, aceitar a poeira, o sol, o imprevisto.
Também já entrei em anos novos com o pé na porta — impaciente, exigente, querendo que tudo mudasse da noite para o dia. Em outros, confesso, meti o pé na jaca sem o menor pudor, exagerando nos sonhos, nas promessas, nas taças levantadas mais pela ilusão do que pela certeza. Faz parte. Viver também é errar o passo, desafinar o ritmo, rir de si mesmo depois.
Hoje, talvez por cansaço ou maturidade, desejo algo mais simples: entrar no novo ano com os dois pés no chão e o coração descalço. Ser feliz não como quem conquista um troféu, mas como quem aceita um presente. Simplesmente ser feliz.
A sorte, aprendi, com muita resiliência, não é esse raio que cai do céu escolhendo uns e ignorando outros. Sorte é perceber o amor quando ele passa disfarçado de rotina. É reconhecer que estar vivo já é um privilégio silencioso. É acordar e ter com quem dividir o pão, o afeto, o silêncio.
O amor, por sua vez, não precisa de fogos. Ele se manifesta no gesto pequeno, na escuta atenta, no respeito ao tempo do outro. Amor é quando a gente caminha junto, mesmo sem saber exatamente onde vai dar a estrada.
Talvez seja isso que nos falte como gente e como humanidade: viver com propósito, mas sem rigidez; em harmonia, sem uniformidade; em união, sem perder a individualidade. Saber que ninguém atravessa o ano sozinho. Nem a vida e muito menos o tempo.
Que o novo ano nos encontre assim: com os pés sujos de caminhada, os olhos atentos à beleza possível e o coração aberto para a sorte maior de todos. Simplesmente assim: amar e ser amado. Se for assim, já está valendo.
Caio Quinderé

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