A Janela que Dava para John


 

Nunca fui de ter ídolos. Essa palavra sempre me pareceu pesada, quase uma entrega cega demais. Mas havia, e talvez ainda haja, figuras que atravessam a gente sem pedir licença. John Lennon foi uma delas. Não como um santo, não como um profeta, mas como um daqueles raros seres que transformam música em vento e, de alguma forma misteriosa, sopram em direção à vida da gente.

Eu tinha doze anos quando John morreu. Doze anos: a idade em que o mundo ainda cabe inteiro numa mochila escolar e, ao mesmo tempo, parece grande demais para compreender. Lembro da notícia como se tivesse sido dita em voz baixa, com a delicadeza que antecede um abalo. John Lennon assassinado em Nova Iorque. Uma frase simples, mas com peso de pedra lançada no fundo de um lago.

Senti um vazio. Um silêncio frio. Algo tinha mudado, embora eu não soubesse nomear o quê. Fui até a janela do apartamento na Constante Ramos, em Copacabana, onde morava com minha mãe, como se aquela fresta pudesse me aproximar de Manhattan. Nova Iorque era longe demais, mas a sensação de perda era teimosa, quase física. Olhava o céu carioca e, por um instante, acreditei que a distância podia ser dobrada pelo pensamento.

Na escola, eu era o menino de cabelo comprido que gostava de música, literatura, teatro. Um garoto meio deslocado no pátio, magro demais, mas confortável no próprio mundo. Por isso me chamavam de “John Lennon”. Um apelido que me cabia sem esforço. Talvez até com certo orgulho tímido. Era como se, naquele batismo improvisado, eu recebesse uma senha para entrar mais fundo no universo dos Beatles.

E foi ali, entre giz, banco de madeira e tardes solitárias no quarto, que Lennon ganhou outro significado para mim. Não era só o cantor de óculos redondos igual aos meus. Era o homem que acreditava que a paz podia ser uma ideia simples, quase infantil, mas radicalmente transformadora. Imagine all the people…

A canção que pedimos para os adultos do mundo ouvirem, mas que eles raramente escutam. Imagine all the people, please!

A morte de John me fez entender, ainda menino, que artistas não são eternos, mas aquilo que eles despertam e exemplificam, sim. A paz que Lennon cantava não era uma promessa utópica. Era um gesto. Um convite. Uma semente lançada ao vento, esperando que alguém a colhesse.

Hoje, quando penso naquele menino na janela de Copacabana, tentando enxergar o corpo de John do outro lado do continente, vejo que o que eu buscava não era a imagem da tragédia. Era a presença. Era o vínculo que, de repente, parecia ameaçado. Mas Lennon nunca esteve com o corpo estendido numa calçada de Nova Iorque. Ele continuava, e ainda continua, naquela melodia que insiste em nos lembrar que o mundo pode ser menos duro, mesmo numa década de tanta guerra e polarização ao extremo.

A verdade é que, mesmo sem ídolos, carrego Lennon como quem leva um pedaço de luz no bolso. Não para venerar, mas para recordar: alguém um dia acreditou profundamente em algo simples e poderoso. E colocou essa crença no mundo com coragem. Imagine all the people living in peace and sharing the bread. Talvez seja isso que a música faz,  transforma ausências em permanências.

E, no fim, sigo imaginando. Porque imaginar, aprendi com ele, também é uma forma de paz.


Caio Quinderé, 08 de dezembro de 2025.

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