Entre acentos e palavras
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Houve um tempo em que pensei que o português fosse uma casa, de portas altas e janelas que rangem com o tempo, onde cada cômodo guarda um eco. A gente entra menino, tropeça nos tapetes, esbarra nos móveis, bate a cabeça nos acentos. Ou deveria ser pés e tornozelos nos assentos. Seguimos, e vamos falando até entender que ali dentro nada é exatamente o que parece; mas tudo encontra um sentido quando se escuta com paciência.
Outro dia, por exemplo, me peguei implicando com esse pequeno traço que governa destinos: o acento. Um risco mínimo, desses que cabem na ponta do lápis, porém muda tudo. Entre doidos e doídos há mais que uma diferença gráfica; há um abismo humano. Um se perde da razão, o outro se perde de si. E o curioso é que, na pressa cotidiana, basta um descuido para que a dor vire desordem. Ou o contrário.
Há quem diga que acento é detalhe, principalmente com essa forma de escrita, o WhatApp. Desconfio que seja caráter. Veja o coco e o cocô: um refresca, o outro constrange. A distância entre o prazer e o vexame pode ser um til mal colocado. E o cágado, coitado, talvez seja o mais injustiçado dessa história. Tire-lhe o acento e ele perde não só a forma, mas quase a dignidade. Há palavras que carregam a própria honra na cabeça, já dizia Ariano Suassuna.
O idioma português também gosta de brincar de espelho. A babá cuida; quem baba descuida. O bebê chora; quem bebe, às vezes, esquece e pode até matar. E assim seguimos, equilibrando sentidos como quem atravessa uma rua movimentada, desviando de significados que passam em alta velocidade. Mas o que mais me intriga são essas palavras que parecem irmãs, porém vivem em conflito silencioso. “Mas” e “mais”, por exemplo. Uma nega, a outra acrescenta. E quantas vezes, na vida, não fazemos o mesmo? Dizemos “mas” quando o coração queria dizer “mais”. Negamos por medo daquilo que poderia ampliar o mundo. A língua, nesse ponto, não só descreve; ela denuncia.
E há ainda as coincidências soando como poesia acidental. “Na sexta comprei uma cesta depois da sesta”, e me dei conta de que o idioma também cochila e acorda em ciclos próprios. Cada palavra carrega um ritmo, um tempo, uma biografia. Move consciências.
Gosto dessas perguntas que o português deixa no ar, como quem não quer resposta, só reflexão. A romã veio de Roma ou foi capricho sonoro? Quem sabe mais: a sábia ou o sabiá? E Pelé, será que sua pele já intuía a história que viria a ser escrita com grande expressividade?
Talvez o idioma não seja uma casa, mas um território em constante construção. Um lugar onde o sentido se ergue e se desfaz conforme o uso, o contexto, a intenção. Onde “assento” sustenta o corpo e “acento” sustenta a palavra. Ambos são necessários para não cairmos no vazio. No fundo, escrever em português é aprender a escutar o invisível. É perceber que “amem” pode ser ordem, enquanto “amém” é entrega. E que viver, muitas vezes, exige esse duplo movimento: agir com firmeza e, depois, aceitar com humildade. E se, no meio disso tudo, a gente errar, não há problema. O erro também faz parte da gramática da vida. Ele nos ensina a diferença entre o que somos e o que queríamos dizer. O importante é continuar tentando, ajustando, acentuando o que precisa de ênfase e suavizando o que pede silêncio. Porque, no fim das contas, o português não é para amador assim o próprio Brasil, parafraseando o poeta Vinicius de Moraes. Também não é para quem busca perfeição, é para quem aceita o desafio de habitar as palavras com cuidado. Para quem entende que, às vezes, um acento é tudo o que separa o caos da clareza e o riso do constrangimento.
E quando finalmente acertamos, ainda que por um instante, há uma espécie de harmonia secreta. Como se a língua, por um breve segundo, nos acolhesse e dissesse: “agora sim, você disse o que queria dizer”, como o mais genuíno povo brasileiro que sabe acentuar com coragem e criatividade.

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