Voa, Hermeto-sabiá.



Hoje amanheci com uma saudade que não conhecia.
Dizem que Hermeto Pascoal se foi. Mas será que alguém assim vai? 

Hermeto nunca pertenceu ao tempo. Era feito de outra matéria, dessas que a terra empresta só aos que sabem escutá-la. Ele ouvia a música escondida nas coisas. Tocava as pedras, os galhos, a água do rio, e tudo respondia como quem reencontra uma língua antiga.

Os passarinhos vinham pousar perto dele, curiosos com aquele homem de cabelos brancos que falava sua fala. Hermeto não traduzia a natureza: ele era tradutor do silêncio, do riso do vento, da respiração do mundo.

Hoje, enquanto a notícia corria, eu fechei os olhos. Senti o ar. Havia nele um acorde leve, desses que não se tocam com os dedos, mas com a alma. Talvez fosse Hermeto passando por aqui, soprando uma última melodia, lembrando-nos que música não é som — é estado.

Ele partiu, dizem. Mas a verdade é que se espalhou. Agora está no coaxar do sapo, no estalar da lenha, no pio da coruja que atravessa a noite. Está no sopro do vento que desarruma os cabelos da gente e no silêncio que fica depois que uma música termina.

Hermeto nunca precisou de palco. O mundo era seu instrumento. E talvez por isso sua ausência pareça presença: ele está em tudo.

Escuto um sabiá na janela. É ele, sorrindo, com aquele jeito manso de quem sabia que a vida não se mede em notas, mas em encantamento.

Voa Hermeto, voa como o sábia



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