A Arte de contnuar
Outro dia vi uma mulher varrendo a calçada enquanto o mundo parecia desabar dentro do celular dela. O aparelho tocava notícias ruins em sequência: guerra, inflação, escândalo político, tragédia climática, violência urbana, intolerância ideológica, vídeos curtos ensinando felicidade instantânea e ódio imediato. Ainda assim, ela seguia varrendo as folhas secas da rua com uma serenidade íntima, como quem soubesse que o país não se sustenta nos discursos inflamados da internet, mas no gesto silencioso de quem continua.
Pensei nisso o dia inteiro. O brasileiro talvez seja um dos maiores especialistas mundiais na arte de resistir. Não essa resistência teatral dos slogans publicitários, nem a superação plastificada das palestras motivacionais. Falo da resistência anônima, cotidiana, invisível. Aquela que mora na senhora que pega dois ônibus lotados para trabalhar e ainda encontra força para perguntar ao vizinho: “Tudo bem por aí?”. Existe uma filosofia profunda no pedreiro que trabalha sob um sol de quarenta graus e improvisa um sorriso ao ouvir um Gonzaguinha no rádio. Há heroísmo no agricultor do sertão que olha para o céu seco e insiste em plantar mesmo depois de tantos janeiros frustrados.
Vivemos uma época estranha. Nunca houve tanta informação circulando e, paradoxalmente, tão pouca compreensão. As pessoas falam sem pausa, opinam sem reflexão e condenam sem escuta. A verdade virou torcida organizada. O diálogo perdeu espaço para o duelo. Cada um carrega sua pequena fogueira moral acesa, pronto para incendiar o outro ao menor sinal de discordância. E as fake news, essas moscas digitais, proliferam no ambiente quente da ansiedade coletiva. Espalham-se porque exploram nossos medos mais primitivos: o medo do futuro, da perda, do diferente, da solidão. Compartilha-se primeiro, pensa-se depois. Quando se pensa. O celular, que prometia aproximar o mundo, muitas vezes apenas acelerou a circulação da raiva.
Talvez por isso exista tanto cansaço no ar. Não só físico de quem trabalha demais, mas uma exaustão emocional difícil de nomear. Estamos saturados de urgências. Todo dia parece definitivo, catastrófico, inadiável. As redes sociais transformaram a indignação em espetáculo contínuo. E há uma cobrança silenciosa para que todos opinem sobre tudo, o tempo inteiro. Quem silencia parece culpado. Quem duvida parece fraco. Quem pondera parece suspeito. No meio desse ruído ensurdecedor, a empatia se tornou um artigo raro. Escutar alguém até o fim virou quase um ato revolucionário. Mas talvez seja justamente aí que mora a verdadeira resiliência brasileira.
Ela aparece nas pequenas insistências do cotidiano. Na professora da escola pública que compra material do próprio bolso porque se recusa a desistir dos alunos. No jovem periférico que transforma rap, dança ou poesia em possibilidade de futuro. Na avó que cria os netos enquanto a vida lhe cobra juros altos demais. No motoboy que atravessa a cidade inteira e ainda agradece educadamente ao receber um copo d’água.
O Brasil continua de pé porque existe uma multidão anônima sustentando alguma humanidade possível. Gente que divide o guarda-chuva no ponto de ônibus. Gente que leva sopa ao vizinho doente. Gente que ainda oferece cadeira ao idoso no coletivo. Pequenos gestos que não viralizam, não rendem curtidas nem hashtags, mas impedem a completa falência da delicadeza.
Resiliência não é sorrir o tempo todo. Superação não é virar personagem de propaganda. Resistir é continuar humano quando tudo ao redor estimula a brutalidade. É não transformar divergência em ódio. É verificar antes de compartilhar. É desacelerar a fúria. É compreender que do outro lado da tela existe alguém de carne, osso e fragilidade.
Enquanto escrevo esta crônica, alguém fecha uma pequena venda depois de um dia difícil. Uma mãe tenta ajudar o filho na tarefa escolar apesar do cansaço. Um trabalhador entra num transporte público rumo ao emprego. Um idoso rega plantas na varanda tentando conversar com o tempo. E o país segue sustentado por essas cenas mínimas, quase invisíveis.
Há uma sabedoria antiga nisso tudo. A de compreender que a vida não melhora aos gritos. Melhora aos poucos. No cotidiano. Na paciência. Na escuta. Na capacidade de não endurecer completamente. Porque resistir, no fundo, talvez seja isto: preservar a humanidade quando o mundo parece apostar exatamente no contrário.
Caio Quinderé
jornalista e escritor

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