A Arte de Ficar
No fim do ano, aprendi a gostar do que não faz barulho. Houve um tempo em que dezembro me empurrava para a estrada. Era quase uma obrigação moral: malas, mapas mentais, horários apertados, a esperança de que a felicidade estivesse sempre a alguns quilômetros de distância. Eu pegava a estrada achando que mudar de paisagem mudaria também o ritmo do coração. Pegava. Ficava horas parado. Engarrafamentos intermináveis, faróis acesos como vaga-lumes cansados, terminais de ônibus cheios de pressa, aeroportos lotados de gente e de ansiedade. Tudo em nome da virada do ano, como se o calendário exigisse movimento. Hoje, não. Hoje eu fico. Ficar virou um gesto de maturidade, talvez até de rebeldia silenciosa. Ficar em casa, no meu espaço, no território conhecido do sofá, da cozinha, do quarto com suas manias e memórias. Ficar sem relógio, sem mala, sem a obrigação de atravessar estradas para provar que estou vivo. Descobri que o conforto tem uma filosofia própria: ele ensina a desacelerar. ...
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