O Direito de Acreditar.
O Direito de Acreditar
por Caio Quinderé
jornalista e escritor
Outro dia, parado num sinal de trânsito, observava um vendedor ambulante. Fazia calor. O movimento era pequeno. Os carros passavam apressados e poucos notavam sua presença. Ainda assim, ele ajeitava tudo com cuidado, alinhava os produtos e reposicionava outro. Havia naquele gesto uma convicção silenciosa de que alguém iria parar, olhar e comprar.
Talvez não vendesse naquele dia. Talvez vendesse o suficiente para voltar no dia seguinte. Mas estava ali. E havia naquela cena uma característica que, para mim, explica o Brasil: a extraordinária capacidade de acreditar. O brasileiro acredita.
Acredita quando as circunstâncias recomendam cautela. Acredita quando os números não fecham. Acredita quando os especialistas apontam dificuldades e quando o caminho parece mais longo do que deveria ser. Há quem chame isso de teimosia. Outros preferem dizer que é excesso de otimismo. Mas quem conhece o Brasil de perto sabe que é algo diferente. É uma força silenciosa que acompanha o nosso povo há gerações.
Talvez seja por isso que Gonzaguinha continue tão atual. Quando cantava que “a vida é bonita e é bonita”, não fazia uma declaração ingênua. Não ignorava os problemas do mundo nem as dores da existência. Falava de outra coisa. Falava da coragem de seguir em frente. Da capacidade humana de continuar sonhando mesmo quando as circunstâncias sugerem o contrário. Falava, em essência, do direito de acreditar.
Esse direito não aparece nos códigos, nem nos tribunais. Não depende de leis ou decretos. É um direito que nasce dentro das pessoas. Uma espécie de patrimônio invisível que ninguém pode conceder e ninguém pode retirar. Talvez seja por isso que o brasileiro tenha uma relação tão peculiar com o futuro. Em muitos lugares, as pessoas só caminham quando enxergam garantias. Aqui, frequentemente caminhamos apenas com a esperança no bolso. Não porque desconhecemos os riscos, mas porque aprendemos que a vida raramente oferece certezas.
O brasileiro possui uma admirável capacidade de recomeçar. Quando um plano falha, elabora outro. Quando uma porta se fecha, procura um novo caminho. Quando a realidade impõe dificuldades, adapta-se, reinventa-se e continua. Não porque a queda não doa. Dói. Não porque os desafios sejam pequenos. Muitas vezes são enormes. Mas porque existe uma convicção profunda de que o próximo passo ainda vale a pena.
Vivemos uma época em que o desencanto parece estar sempre à espreita. As notícias chegam carregadas de crises, conflitos, divisões e preocupações. Há quem transforme a descrença em sinal de inteligência e a esperança em sinal de ingenuidade.
Acreditar é um ato de coragem. É olhar para a realidade como ela é, sem disfarces, sem ilusões, e ainda assim recusar-se a aceitar que ela seja definitiva. É reconhecer os problemas sem transformá-los em sentença. É compreender que o futuro continua aberto e que cada geração tem a oportunidade de escrever um novo capítulo da história.
A maior riqueza do Brasil não está só em suas paisagens, em sua cultura ou em sua diversidade. Ela está na capacidade quase inesgotável de imaginar dias melhores e trabalhar para que eles existam. Enquanto houver alguém disposto a sonhar, estudar, empreender, trabalhar e recomeçar, continuará existindo uma razão para acreditar. E talvez seja esse o maior direito de todos: o direito de olhar para o amanhã e enxergar nele uma possibilidade. Porque acreditar não é fugir da realidade. Acreditar é ter coragem para transformá-la.

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