O Goleiro que escuta
por Caio Quinderé
Há quem pense que o futebol é um jogo de pernas. Outros defendem que ele pertence aos pés mais habilidosos, aos dribles improváveis ou aos atacantes que decidem partidas. Mas, vez ou outra, o futebol nos lembra que também é um jogo de ouvidos. Escutar é uma arte pouco valorizada. Vivemos cercados por vozes querendo falar, opinar, convencer. Poucos se dispõem a ouvir. E talvez por isso o goleiro seja uma das figuras mais fascinantes do futebol. Enquanto todos olham para a bola, ele precisa escutar. Escutar o silêncio antes da cobrança de falta. Escutar o grito do zagueiro. Escutar o movimento do adversário. Escutar o próprio corpo dizendo o momento certo de sair ou permanecer debaixo das traves.
Penso nisso quando vejo Vozinha, goleiro da seleção de Cabo Verde. Seu país escreve uma página inédita da história ao disputar, pela primeira vez, uma Copa do Mundo. Não é apenas uma estreia. É um povo inteiro descobrindo que os sonhos também podem vestir chuteiras. No caminho, vieram gigantes: Espanha, Uruguai e, agora, Argentina. Para muitos, são jogos em que a lógica parece já estar escrita antes do apito inicial. Mas quem conhece o futebol sabe que, dentro das quatro linhas, há algo que estatísticas não conseguem medir: a coragem. E coragem não faz barulho. Ela escuta.
Imagino Vozinha organizando sua defesa. Falando pouco. Ouvindo muito. Percebendo o posicionamento dos companheiros, antecipando movimentos, lendo o jogo antes que ele aconteça. É exatamente isso que a escuta faz na vida. Quando realmente ouvimos alguém, não estamos apenas esperando nossa vez de responder. Estamos tentando compreender. Estamos antecipando necessidades, acolhendo medos, reconhecendo sentimentos que muitas vezes nem foram colocados em palavras.
Quem escuta bem evita conflitos desnecessários. Fortalece relações. Inspira confiança. Assim como um goleiro. Um bom goleiro não aparece só quando faz uma defesa espetacular. Ele aparece antes disso, quando orienta a linha defensiva, quando comunica segurança e quando transmite tranquilidade para que todo o time jogue melhor. A escuta tem esse mesmo efeito. Ela organiza o ambiente.
Vivemos em uma sociedade onde todos querem ser ouvidos. Talvez o maior diferencial seja justamente aprender a ouvir. Porque escutar exige humildade. Exige abrir mão da certeza absoluta. Exige reconhecer que o outro pode enxergar um pedaço do campo que nós não vemos. Talvez seja essa a grande defesa que o mundo precisa hoje.
Enquanto milhões acompanham os passos históricos de Cabo Verde na maior competição do futebol, vale olhar além do placar. Vale observar o homem que guarda o gol e lembrar que, antes de cada defesa, existe alguém atento aos sons do jogo.
Na vida também é assim. Os melhores resultados nem sempre nascem das palavras mais fortes. Muitas vezes, eles começam no silêncio de quem decidiu escutar.
28 de junho de 2026

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