O Tempo Debaixo do Pau-Brasil


 

por Caio Quinderé

jornalista e escritor


Na última sexta-feira, saí de casa apressado. A ansiedade tinha endereço certo: a editora onde me aguardava para entregar o “boneco” do meu próximo livro. Quem escreve conhece bem essa expectativa. Ver um livro ganhar forma é como encontrar, pela primeira vez, um filho que durante meses habitou apenas a imaginação. Cheguei ao destino e encontrei as portas fechadas. Por alguns instantes, pensei ter errado o horário. Depois lembrei: era ponto facultativo, um daqueles dias que o calendário empurra para dentro do feriado de Corpus Christi, criando um intervalo silencioso entre o trabalho e o descanso.

Enquanto eu ainda calculava o contratempo, um rapaz que passava pela rua me disse, com a tranquilidade de quem conhece os ritmos do lugar: — Espere um pouco. Daqui a pouco eles abrem. E eu esperei.

Ao lado da editora havia um majestoso pau-brasil. Centenário, alto, largo de tronco e generoso de sombra. Suas raízes expostas desenhavam sobre a terra uma espécie de mapa antigo, como se contassem histórias que nenhum livro conseguiu registrar. Procurei abrigo sob sua copa e, sem perceber, fui desacelerando. Aquela árvore certamente estava ali muito antes da construção da editora, muito antes da rua receber seu asfalto, muito antes dos carros e das pressas modernas. Quantas gerações teriam descansado sob aquela mesma sombra? Quantas conversas, encontros e despedidas ela testemunhara em silêncio?

Enquanto observava o pau-brasil, meus olhos foram atraídos por uma fila de formigas. Elas seguiam seu caminho em perfeita ordem, carregando fragmentos maiores que seus próprios corpos. Não havia ansiedade, não havia correria. Havia só o movimento necessário. Cada uma cumprindo sua tarefa no tempo exato que lhe cabia. A rua, surpreendentemente vazia, parecia compartilhar daquela serenidade. Poucos veículos passavam. Nenhuma buzina interrompia a manhã. O mundo ao meu redor parecia ter assinado um acordo secreto com o relógio. 

Foi então que me ocorreu uma imagem: as horas mastigavam os minutos lentamente, sem pressa alguma. Nós é que, muitas vezes, tentamos devorar o tempo antes que ele passe. Corremos atrás dele como quem persegue um trem em movimento, quando talvez o mais sábio seja sentar-se por alguns instantes à sombra de uma árvore e aceitar que cada coisa acontece no seu compasso.

A natureza conhece esse segredo. A árvore cresce sem ansiedade. As raízes avançam sem alarde. As formigas trabalham sem reclamar da distância. O vento percorre seu caminho sem consultar relógios. Tudo acontece dentro de uma poesia silenciosa que raramente percebemos porque estamos ocupados demais olhando para o próximo compromisso.

Ali, esperando uma porta abrir, descobri outra porta se abrindo dentro de mim. A do entendimento de que nem sempre perder tempo significa desperdiçá-lo. Às vezes, o tempo aparentemente perdido é justamente aquele que nos devolve a capacidade de enxergar.

Quando a editora finalmente abriu, recebi o “boneco” do livro Novelos do Tempo que tanto desejava ver. Mas saí dali levando algo mais valioso que as páginas impressas. Levei a lembrança daquela manhã em que um velho pau-brasil, algumas formigas e uma rua tranquila me ensinaram que o tempo não é nosso adversário. Ele somente segue sendo o que sempre foi: o grande poeta invisível que escreve a vida no ritmo da natureza.


09 de junho de 2026

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