O novo grito do Ipiranga.
Há momentos em que uma avenida
deixa de ser apenas uma avenida. Transforma-se em praça pública, palco da
história, coração pulsante de um país que, por algumas horas, parece caber
inteiro no mesmo abraço. Foi assim que a Avenida Paulista, em São Paulo, se tornou
símbolo de uma esperança renovada, um cenário em que a democracia, a cultura e
a soberania nacional ganharam voz, rosto e emoção.
A reeleição de Luís Inácio Lula
da Silva, celebrada por seus apoiadores, pode ser compreendida, nesse contexto,
como mais do que uma vitória eleitoral. Para muitos dos que estiveram ali ou assistiram
pelas telas, representou a reafirmação de um Brasil que deseja caminhar de
cabeça erguida, sem abrir mão da liberdade, do direito à diferença e da
possibilidade de construir um futuro menos desigual.
Quem assistiu àquela manifestação
e viu o povo reunido, as bandeiras tremulando, os abraços se multiplicando e as
vozes se unindo, talvez tenha percebido a força de um gesto que ultrapassava os
limites de uma disputa política. Havia algo de profundamente simbólico naquela
ocupação da avenida. Como se o povo, ao tomar a palavra e cantar suas
convicções, anunciasse que a democracia não se encerra nas urnas: ela continua
nas ruas, nas escolas, nos teatros, nas universidades e em cada espaço onde a
cidadania se faz presente.
E então veio a lembrança do
Ipiranga.
Em 1822, às margens daquele
riacho, o grito atribuído a Dom Pedro I entrou para a memória nacional como
marco da Independência. Dois séculos depois, a imagem de uma multidão reunida
na Paulista permite imaginar outro grito, de natureza diferente, mas igualmente
carregado de significado: o grito de um povo que deseja ser senhor de seu
próprio destino. Não mais a independência de uma metrópole, mas a afirmação da
liberdade política, da justiça social e da soberania de uma nação que não
aceita ter sua vontade diminuída.
Não se trata de trocar um herói
por outro, nem de confundir a história com a propaganda e tal. A independência
de ontem e a democracia de hoje são experiências distintas. Mas ambas nos
convidam a pensar sobre uma pergunta essencial: de quem é o Brasil? A resposta,
numa democracia verdadeira, não pertence a um homem, a um partido ou a uma
classe. Pertence ao povo, em toda a sua diversidade, com suas contradições,
suas dores e seus sonhos.
Naquela paisagem de gente, o Hino
da Independência adquiriu uma ressonância especial. Quando tantas vozes cantam
juntas, o hino deixa de ser só uma solenidade oficial. Torna-se memória
compartilhada, lembrança de que a pátria não é propriedade dos poderosos da
Faria Lima, das Bets e nem tampouco um patrimônio reservado aos que pensam de
maneira semelhante. A pátria é também a trabalhadora que atravessa a cidade
antes do amanhecer, o estudante que sonha com a universidade, o professor que
insiste em ensinar e o artista que encontra beleza mesmo nos dias difíceis.
Educação e cultura, ali, podiam
ser entendidas como instrumentos de emancipação de um povo. Um país que educa
seu povo amplia horizontes; um país que valoriza seus artistas reconhece a
riqueza de sua própria alma. E um país que defende sua soberania compreende que
independência não significa isolamento, mas capacidade de dialogar com o mundo
sem renunciar à própria voz.
A Avenida Paulista, por algumas
horas, pareceu dizer tudo isso sem precisar de discursos intermináveis.
Bastavam as bandeiras, as canções e os rostos voltados para um amanhã ainda
incerto. A democracia, afinal, não é uma festa permanente. É trabalho
cotidiano, respeito às instituições, compromisso com os direitos e disposição
para conviver com quem pensa diferente. Uma eleição pode abrir caminhos, mas
não realiza sozinha as promessas de uma nação. Cabe aos governantes honrar a
confiança recebida e à sociedade continuar vigilante, participativa e livre.
Talvez tenha sido esse o sentido
mais profundo daquele encontro: recordar que o Brasil não pertence ao passado,
nem está condenado a repetir suas páginas mais tristes. A história permanece
aberta, esperando a participação de cada cidadão. E, quando o povo canta o Hino
da Independência com os olhos postos no futuro, a velha avenida ganha a
dimensão de um novo Ipiranga. Não um grito contra irmãos, mas um chamado à
construção de uma pátria livre, soberana, democrática e capaz de oferecer
dignidade a todos. Porque a independência de um país só se completa quando a
liberdade deixa de ser palavra de ordem e se transforma em direito vivido por
seu povo.

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