A Arte de Ficar

 




No fim do ano, aprendi a gostar do que não faz barulho.

Houve um tempo em que dezembro me empurrava para a estrada. Era quase uma obrigação moral: malas, mapas mentais, horários apertados, a esperança de que a felicidade estivesse sempre a alguns quilômetros de distância. Eu pegava a estrada achando que mudar de paisagem mudaria também o ritmo do coração. Pegava. Ficava horas parado. Engarrafamentos intermináveis, faróis acesos como vaga-lumes cansados, terminais de ônibus cheios de pressa, aeroportos lotados de gente e de ansiedade. Tudo em nome da virada do ano, como se o calendário exigisse movimento.

Hoje, não.

Hoje eu fico.

Ficar virou um gesto de maturidade, talvez até de rebeldia silenciosa. Ficar em casa, no meu espaço, no território conhecido do sofá, da cozinha, do quarto com suas manias e memórias. Ficar sem relógio, sem mala, sem a obrigação de atravessar estradas para provar que estou vivo. Descobri que o conforto tem uma filosofia própria: ele ensina a desacelerar.

No fim do ano, gosto da informalidade. Da roupa leve, do chinelo que conhece meus passos, do silêncio que entra pela janela. Gosto da trivialidade elevada à condição de ritual: um café sem pressa, uma música antiga tocando baixo, o ventilador girando como se meditasse. Nada de grandioso. Nada de extraordinário. Apenas o estar.

Estar tranquilo virou um luxo. Ficar tranquilo, então, é quase um privilégio. Não disputar espaço na estrada, não lutar por assento, não negociar paciência em filas intermináveis. Ficar em casa é um acordo comigo mesmo: não preciso ir longe para atravessar o ano. A passagem é interna.

À meia-noite, o ano muda do mesmo jeito. O tempo não se ressente da minha ausência nas praias, nas festas lotadas, nos brindes coletivos. O calendário vira a página com a mesma elegância. E eu viro junto, em silêncio, com um copo simples na mão e o coração em paz.

Talvez eu tenha entendido tarde, mas entendi: a tranquilidade também é uma forma de celebração. E, para mim, hoje, ela mora aqui.

Comentários

  1. Texto tão belo quanto tocante, Caio Quinderé, ensinamentos valiosos para levar conosco no palmilhar da estrada da vida. Gratidão!

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